Você tem alguma lembrança com um teatro? Não apenas do espaço físico, mas também da arte de encenar, improvisadas em escolas e outros agrupamentos.
Acredito que sim. Quase todo mundo tem.
Como um organismo vivo, a cidade segue o mesmo caminho. Habitam em sua memória diversas passagens enredadas pelos atores, espaços e peças da arte teatral.
As primeiras peças teatrais de que se tem registro no Espírito Santo aconteceram no final dos anos de 1500. Coordenadas por José de Anchieta e realizadas no adro do Colégio de São Tiago, colégio jesuíta edificado onde hoje está o Palácio Anchieta, o Auto de São Maurício, Auto das Onze Mil Virgens de Santa Úrsula e Auto da Pregação Universal são apontadas pelos pesquisadores como as pioneiras do Espírito Santo colonizado – dou ênfase à colonização como marco histórico porque a prática cênica já estava presente entre os indígenas antes da chegada dos colonizadores portugueses, mas, infelizmente, carecemos de registros.
O teatro era amplamente praticado pelos jesuítas porque, dentro da logística de convivência, exercia a função de mais um elemento catequizador. Muitas dessas peças seguiam a narrativa de demonização das divindades indígenas, na mesma medida que exaltavam o Deus e santos católicos.
Agora, apenas com a capital como recorte geográfico, durante longos séculos o teatro em Vitória teve ruas, largos e igrejas como palco. Somente em 1896 que a primeira edificação destinada à arte foi construída em solo capixaba.
Como parte de um processo de modernização urbana, social e cultural, surgiu o Theatro Melpômene – Melpômene é a deusa grega da tragédia – e sua história é repleta de curiosidades.
O local escolhido foi o antigo Largo da Conceição da Prainha, que tinha esse nome por causa de uma pequena igreja destinada à santa e que posteriormente deu lugar à Praça Costa Pereira.
Sua estrutura era formada majoritariamente por peças de madeiras, sustentadas por imensas bases de ferro, tendo capacidade para cerca de 1300 pessoas. Para sua construção, peças vieram do Rio de Janeiro e vários profissionais vieram da Itália, com destaque para o engenheiro Filinto Santoro e o ajudante André Carloni.
Apesar do pioneirismo na cidade e dos esforços de importação para sua inauguração, o Melpômene teve vida curta. Em 1924, durante a exibição de um filme, um princípio de incêndio na cabine de projeção gerou intenso pânico e tumulto no público presente.
O tremendo corre-corre levou a pisoteamentos, desabamento de uma escada e muitas pessoas se jogaram de estruturas na tentativa de sair do local. O incêndio, em si, foi controlado, não causando muitos danos na estrutura. Já a confusão oriunda dele deixou um saldo de dois mortos, diversos feridos e uma péssima fama para o local. Tão ruim que culminou na interdição do Melpômene naquele mesmo ano de 1924 e no seu completo desmonte no ano seguinte.
Suas bases de ferro foram reaproveitadas pelo jovem André Carloni e reutilizadas na construção do Teatro Carlos Gomes. Este, inaugurado em 1927 e de autoria do já citado italiano André Carloni, surgiu com o propósito de preencher a lacuna deixada pelo Melpômene.
Tem como referência o Teatro Scala, de Milão. Sua fachada, uma preciosidade arquitetônica em que predomina o neoclássico, ostenta em seu topo esculturas belíssimas que representam as artes.
Entre altos e baixos, fechamentos e reaberturas, tem na história do seu palco grandes nomes da arte brasileira como Paulo Autran e Cartola. Hoje, recém-reinaugurado, segue ocupando a prateleira dos principais teatros da cidade.
Com cinco anos de funcionamento, o Carlos Gomes recebeu a companhia do Cine Teatro Glória, fundado em 1932. O prédio passou a ser o mais alto da cidade, o pioneiro em concreto armado e símbolo da imponência urbana.
Nada disso impediu que o Glória, como passou a ser popularmente chamado, passasse pelas oscilações e instabilidades comuns aos espaços culturais da nossa história. Felizmente, em tempos atuais, também está à disposição da sociedade capixaba, em pleno funcionamento, como segmento teatral da cidade de Vitória ao lado de outros espaços como o Palácio Sonia Cabral, o Centro Cultural Sesi e o Teatro Universitário da Ufes.
Como disse no começo deste escrito, falar de teatro não é um papo limitado às suas representações em grandes edifícios. Muitos atores, diretores, dramaturgos, cenógrafos, figurinistas, companhias e pequenos espaços encenam as páginas desta história.
Aos do passado, que escreveram esta trajetória, e aos do presente, que lutam diariamente para manter a arte viva em nosso cotidiano, uma salva de palma digna dos grandes espetáculos!
Algumas companhias independentes de teatro de Vitória:
RAC - Repertório Artes Cênicas e Cia
Coletivo de Dramaturgia Elas Tramam Grupo Vira Lata de Teatro
Árvore Casa das Artes
Obras para conhecer melhor a história do teatro no ES:
História do Teatro Capixaba – 395 anos. Oscar Gama
Revivendo o Melpômene: cinco atos das memórias de um teatro de madeira. Organização: Colette Dantas.
Revolução de Caranguejos: o teatro no Espírito Santo durante a Ditadura Militar. Duílio Henrique.