Sair
Assine
Entrar

Marcus Vinicius Sant'Ana

Para nós, todo dia é 14 de maio

Hoje, munido de certo letramento racial, brado, onde e sempre que posso, as problemáticas que circundam as celebrações do 13 de maio. Farei aqui

Publicado em 14 de Maio de 2026 às 04:00

Públicado em 

14 mai 2026 às 04:00
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

Eu me lembro que, quando eu era moleque, no idos do ensino fundamental, em um determinado 13 de maio, uma professora teve a ideia de encenar uma celebração do momento da assinatura da Lei Áurea. 


Em uma escola particular, não foi difícil encontrar uma menina para fazer a Princesa Isabel e muito menos o escravizado que celebraria e a agradeceria pela canetada - tinha apenas eu de negro na turma. 


Para engrossar a ala da pretada, chamaram duas serventes, segmento da escola em que, obviamente, não faltavam negros. Bem à moda daqueles teatrinhos de escola, teve dramatização da assembleia-geral, da própria assinatura com direito à beija-mão da princesinha e até uma comemoração fajuta feita por mim e pelas tias serventes. 


No alto da minha infância e então construção de escolaridade, jamais identificaria a excrescência do momento. Hoje, munido de certo letramento racial, brado, onde e sempre que posso, as problemáticas que circundam as celebrações do 13 de maio. Farei aqui. Vamos lá… 

Veja Também 

Obras de revitalização da Rua Sete, no Centro de Vitória

Viver as ruas de nossa cidade é fazer a verdadeira história de um povo

Imagem Edicase Brasil

A feijoada e outros rituais populares destinados a São Jorge e Ogum no ES

Imagem de destaque

3 tradições que são a cara do ES na Semana Santa

Usando o próprio 13 de maio de 1888 como referência, podemos traçar análises e discussões com referências anteriores e posteriores à data, cronologicamente falando. 


Começando pelas anteriores, quando se comemora a data e se exalta a figura da Princesa Isabel como grande redentora da população negra brasileira, automaticamente se deturpa os reais motivos que a levaram a tal ato: intensa pressão advinda da política internacional, por parte da sociedade e por abolicionistas. 


Oculta-se, ainda, anos de luta que foram travados por intelectuais - alguns deles negros, inclusive! -, quilombolas, sociedades abolicionistas e outros segmentos que por anos foram enfraquecendo a estrutura escravista vigente. 


Em números, o Brasil tinha aproximadamente 6 milhões de negros e pardos em 1888. Deles, “apenas” 700 mil eram escravizados, mostrando que a maioria esmagadora da população negra brasileira já estava em liberdade, fruto, como dito, da luta de muita gente envolvida na causa abolicionista e não pela benevolência emergente da Isabel. 


Libertos, mas não inseridos. Importante destacar também as ações que visavam impedir a inserção dos negros na sociedade. A começar pela primeira lei de educação do Brasil, de 1837, que era bem clara ao dizer que: “São proibidos de frequentar as escolas públicas. Primeiro: pessoas que padecem de moléstias contagiosas. Segundo: os escravos e os pretos africanos, ainda que sejam livres ou libertos”. Tal lei resultou em uma grande leva de negros analfabetos. 


Em 1850, foi promulgada a Lei de Terras, que instituiu altos custos para a compra e regularização de terras em todo o território brasileiro, ato que favoreceu as elites e dificultou o acesso de pequenos agricultores, atingindo diretamente os ex-escravizados. 


Por falar em terras e questões agrícolas, prevendo a abolição e movida pela escassez de mão de obra gerada pela proibição do tráfico de escravizados (1850), a elite política fomentou a vinda de imigrantes visando ao embranquecimento da sociedade brasileira e, consequentemente, a plena exclusão de sua parcela negra. 


Tudo isso antes da abolição. Ou seja, em 13 de maio de 1888, cerca de 700 mil negros juntaram-se a outros 6 milhões e, sem indenização, sem projeto de inserção e privados dos amparos mais básicos ao ser humano foram lançados à própria sorte. 

Racismo

Chegando ao pós-abolição, para reforçar essa estrutura racialmente desigual, o Código Penal da República (1890) introduziu, nos artigos 399 a 404, a punição para quem não tivesse "profissão, ofício ou qualquer mister em que ganhe a vida ou domicilio certo”. 


Acredito que não seja necessário especificar quem eles queriam encarcerar com tal ato. Estamos falando de menos de duzentos anos de distância cronológica e de ações que edificaram e estruturaram a nossa sociedade atual.


Após tudo isso, para concluir a teoria do contrassenso das comemorações do 13 de maio, convido você a olhar ao redor. A analisar, sabendo que cerca de 55% da população brasileira é negra, a cor ou raça daqueles que ocupam as esferas de poder, os altos cargos empresariais, os espaços elitizados e outros mais recintos de privilégio do nosso país. 


Feita a análise, se curve, logo após, para o cenário inverso: as comunidades periféricas, a população carcerária, as pessoas em situação de rua, e as profissões mais precarizadas. Verás que a desigualdade racial é pulsante, fruto de um projeto secular e que comemorar o 13 de maio enquanto se exalta a Princesa Isabel é fazer coro a uma narrativa que não condiz com a realidade. 


Para nós, todo dia é 14 de maio…


Um salve a Emannuel 7Linhas, poeta capixaba nascido das entranhas da desigualdade racial deste país e igualmente assassinado por ela.

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Quando uma viagem de férias se transforma em emergência epidemiológica
Imagem de destaque
ES muda mediação de conflitos de terra da pasta de Direitos Humanos para Segurança
Imagem de destaque
Bispo no ES transfere e nomeia padres. É a segunda vez em cinco meses

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados