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Ethel Maciel

Quando uma viagem de férias se transforma em emergência epidemiológica

A educação em saúde segue como ferramenta estratégica. Informar corretamente evita desinformação, reduz o pânico e fortalece a prevenção coletiva

Publicado em 14 de Maio de 2026 às 04:15

Públicado em 

14 mai 2026 às 04:15
Ethel Maciel

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Ethel Maciel

Imagina estar nas tão planejadas férias e, de repente, se ver no meio do oceano, sem poder sair do quarto, isolado na cabine de um navio. Parece assustador e improvável, mas foi exatamente isso que 149 pessoas de 23 nacionalidades diferentes vivenciaram nas últimas semanas.


Um surto de hantavirose foi confirmado no navio de cruzeiro MV Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, no início de abril de 2026. A embarcação passou pela Antártica, realizou paradas em Santa Helena e seguiu rumo a Cabo Verde e, posteriormente, a Tenerife, na Espanha, onde os passageiros entraram em quarentena. 


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o episódio resultou em pelo menos três mortes e múltiplos casos positivos.

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O caso chama atenção por um aspecto raro: a possibilidade de transmissão entre humanos, provavelmente associada à variante Andes do hantavírus. A OMS monitora a situação e reforça que esse tipo de transmissão é incomum, mas potencialmente perigoso. 


Segundo o diretor-geral da OMS, Tenerife foi escolhida por possuir capacidade médica, infraestrutura e condições humanitárias adequadas para acolher os passageiros em segurança. Ele também destacou que a situação não representa uma repetição da crise da Covid-19 e que, até o momento, não há passageiros sintomáticos a bordo.


A decisão foi tomada com base no Regulamento Sanitário Internacional, instrumento que define os direitos e deveres dos países e da OMS diante de emergências de saúde pública. As regras estabelecem que, nesses casos, deve ser escolhido o porto mais próximo com estrutura suficiente para garantir segurança e dignidade aos passageiros.


Os casos relacionados ao cruzeiro reacendem um alerta importante: doenças infecciosas não reconhecem fronteiras e exigem vigilância constante, principalmente em ambientes de grande circulação de pessoas.


O hantavírus é transmitido principalmente pelo contato com partículas presentes na urina, fezes e saliva de roedores silvestres infectados. A infecção ocorre, na maioria das vezes, pela inalação dessas partículas em ambientes fechados ou pouco ventilados. 


Os sintomas iniciais incluem febre, dores musculares, cefaleia e mal-estar, podendo evoluir rapidamente para insuficiência respiratória grave, característica da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH).


Nos casos relacionados ao navio, equipes de saúde passaram a investigar possíveis locais de exposição durante a viagem, analisando rotas, paradas e atividades realizadas pelos passageiros. A investigação epidemiológica é fundamental para compreender a dinâmica do surto e evitar novos episódios.

No Brasil, o hantavírus não é uma doença nova. Os primeiros registros ocorreram na década de 1990 e, desde então, o país mantém vigilância contínua. Segundo o Ministério da Saúde, entre 1993 e março de 2026 foram registrados cerca de 2,4 mil casos de hantavirose no país, com aproximadamente 960 mortes. A taxa média de letalidade é de 46,5%, uma das mais altas entre as doenças infecciosas monitoradas nacionalmente.


As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram a maior parte dos casos confirmados. A doença ocorre principalmente em áreas rurais e está associada a atividades agrícolas, armazenamento de grãos e contato indireto com secreções de roedores infectados. Homens entre 20 e 39 anos representam o grupo mais acometido.


Como os sintomas podem ser confundidos com outras doenças virais, ações de saúde pública tornam-se essenciais. Entre elas estão a notificação imediata de casos suspeitos, investigação epidemiológica, monitoramento de contatos, vigilância ambiental e comunicação transparente com a população.


A prevenção continua sendo a principal estratégia. Ambientes fechados, como depósitos, silos, galpões e porões, exigem cuidados especiais antes da limpeza. O maior risco ocorre quando fezes, urina e poeira contaminada secam e partículas virais são inaladas durante varrições inadequadas.


As recomendações incluem manter o ambiente ventilado por pelo menos 30 minutos antes da limpeza; utilizar luvas e máscaras; evitar varrer poeira seca; umedecer previamente o local com solução de água sanitária; armazenar alimentos em recipientes vedados; eliminar restos de comida e lixo; e vedar frestas que facilitem a entrada de roedores.


A educação em saúde segue como ferramenta estratégica. Informar corretamente evita desinformação, reduz o pânico e fortalece a prevenção coletiva.


Por fim, o episódio reforça a importância do fortalecimento do nosso Sistema Único de Saúde (SUS), responsável por coordenar vigilância, diagnóstico e resposta diante de eventos epidemiológicos. Em um mundo marcado pela intensa mobilidade humana, prevenir e responder rapidamente às doenças emergentes pode salvar vidas.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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