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Marcus Vinicius Sant'Ana

Igreja do Rosário dos Pretos: onda de insegurança e abandono de um símbolo da resistência

Não é necessário gostar ou entender de história, dominar os conceitos de patrimônio nem outra qualquer sabedoria específica para ter a certeza de que um lugar como este deveria obrigatoriamente ter proteção de 24h

Publicado em 28 de Maio de 2026 às 04:00

Públicado em 

28 mai 2026 às 04:00
Marcus Vinicius Sant'Ana

Colunista

Marcus Vinicius Sant'Ana

Um local é arrombado e objetos são roubados. No dia seguinte, acontece uma nova tentativa do crime. 


Tal situação já seria um completo absurdo, independentemente de qual segmento o local ocupa, mas estou falando de uma igreja de mais de 250 anos de existência e de grande importância para o entendimento social, racial e histórico da trajetória capixaba.


A Igreja do Rosário dos Pretos de Vitória foi fundada na década de 1760 e seu surgimento fez parte de um movimento ocorrido em diversos outros locais do Brasil, que visava a inserção de pessoas negras no catolicismo através de irmandades religiosas. 


Grosso modo e de forma ilustrativa, a negociação foi a seguinte: “Recebam, negros, este terreno no Morro do Pernambuco, área marginalizada da cidade. Vocês têm dois anos para construírem uma igreja. Do contrário, pegamos o terreno de volta!”. 

Igreja do Rosário no Centro é arrombada
Igreja do Rosário no Centro é arrombada TV Gazeta/Reprodução

Com muito esforço daqueles que viviam os martírios de uma sociedade racialmente desigual, a igreja foi edificada dentro do tempo imposto e, depois de pronta, extrapolou suas funções religiosas. Não é exagero dizer que a Igreja do Rosário dos Pretos e seus arredores se firmaram como uma espécie de quilombo urbano durante os anos do século XVIII e XIX, sendo um território de intensa presença de pessoas pretas. 


Representações históricas desse passado estão lá até hoje, sendo símbolos resistentes da presença da população negra em uma cidade que costuma ocultar tal passado. A começar pela própria localização da igreja, na Rua do Rosário, hoje uma artéria importante do Centro Histórico mas que, no contexto urbano da época, era, como dito anteriormente, uma área marginalizada e afastada do que era compreendido como cidade.


Ao adentrar a igreja, logo à direita, é possível ver uma construção anexa, uma espécie de pequena casinha que, com toda sua miudeza, guarda reflexos de uma imensa história. É a antiga Casa de Leilões. Um local que, em tempos de escravização, os membros da irmandade leiloavam tudo que era adquirido ou doado para a instituição. Os somativos resultantes dos leilões eram destinados às compras de carta de alforria para escravizados da cidade. 


Ao lado da pequena construção que simbolizou, por anos, a esperança de uma vida menos dolorosa aos negros vitorienses, está um terreno que proporcionou um descanso digno após a morte deles. Explico. Imaginem vocês que, naquela época, as pessoas eram enterradas em terrenos próximos e pertencentes às igrejas, prática oriunda de uma interpretação de que ser sepultado próximo a um local santo proporcionaria a salvação eterna. 


Por motivos óbvios, antes da edificação da Igreja do Rosário dos Pretos e sua irmandade, negros ou escravizados não tinham autorização para ingressarem em irmandades e, consequentemente, não tinham local para serem enterrados. Quando mortos, seus corpos eram jogados em cova rasa, incinerados de forma irregular ou jogados no mar. 

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Com a fundação da igreja, um cemitério foi construído em suas dependências, dando o mínimo de dignidade ao pós-vida daqueles que padeceram em trajetória terrena. Ele está lá até hoje. Guardando esses tempos de sofrimento, luta e resistência. 


O complexo histórico ainda abriga a própria igreja em si, um símbolo da arquitetura colonial que em seu interior abriga tesouros históricos como: objetos sacros como o altar da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha, uma igreja de pescadores localizada em uma pequena praia localizada onde hoje está a Praça Costa Pereira e que foi demolida por ondas modernizadoras do século XIX; as emblemáticas imagens de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, símbolos da devoção e fé de parte da população da cidade; o mastro do santo, representante da profanização do sagrado realizada pela africanização do catolicismo. Além de diversos outros elementos que representam séculos de história. 


Não é necessário gostar ou entender de história, dominar os conceitos de patrimônio nem outra qualquer sabedoria específica para ter a certeza de que um lugar como este deveria obrigatoriamente ter proteção de 24h. 


Sem falar - o que deixarei para uma outra ocasião - no prejuízo histórico e cultural que é ter um espaço tão simbólico fechado para visitação da sociedade apenas por falta de apoio do poder público. 


Diante da onda de insegurança e abandono, os objetos de valor histórico foram realocados para um local seguro. O que é imóvel, porém, segue lá. À mercê do descaso, das fragilidades e do desprezo. 


Finalizo, em sincero questionamento e apelo às autoridades políticas, com as perguntas presentes em nota emitida pela irmandade responsável pela administração da igreja logo após o crime: 


Quanto vale um patrimônio cultural edificado por mãos escravizadas que, na fé, encontraram a liberdade?


Quanto vale a memória de uma cidade que ainda respira nas pedras de 1765?


A quem importa o silêncio imposto sobre uma história de resistência?


Quanto vale a educação patrimonial quando se tranca o próprio livro da nossa formação?


Quanto vale o turismo que gera renda, mas ignora a alma do lugar?

Marcus Vinicius Sant'Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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