O uso excessivo do ambiente digital tem impactado o cenário global em diferentes esferas da vida, e a Geração Z está no centro dessa transformação. Formada por adolescentes e jovens nascidos entre 1995 e 2010, essa geração está testemunhando e moldando um mundo onde a tecnologia desempenha um papel cada vez mais central.
Para a Geração Z, as plataformas digitais não são apenas ferramentas, mas parte integrante de sua experiência cotidiana, usadas para estudar, trabalhar, consumir, se informar e, principalmente, existir socialmente. Tudo parece mais rápido, mais fácil, mais conectado, mas esse impacto vai além da conveniência, pois a tecnologia tem moldado seus valores, suas perspectivas e também, sua saúde mental.
E aqui começa a contradição, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes emocionalmente. A Geração Z vive em timelines infinitas, cercada por filtros, métricas, comparações e opiniões alheias. O que era para ajudar a se comunicar virou, em muitos casos, um palco de ansiedade, baixa autoestima e uma necessidade constante de performar. No lugar de relações profundas, surgem vínculos frágeis, conversas apressadas e um sentimento difuso de insuficiência.
É nesse cenário saturado de telas que o teatro aparece como uma possibilidade inesperada, um lugar para uma pausa necessária para a mente e para o corpo. Enquanto os algoritmos empurram a vida para a velocidade do imediato, o teatro faz o movimento contrário, ele desacelera. Coloca o jovem diante do outro e diante de si mesmo, sem filtros, sem edição, sem “modo retrato”.
E quando falamos de teatro, é impossível não destacar o Teatro do Oprimido. A metodologia criada por Augusto Boal parece conversar diretamente com as urgências emocionais da Geração Z. Ali, ninguém é só espectador, pois todo mundo pode virar sujeito da própria história, experimentando, tentando, errando, recriando. É um espaço em que o jovem pode existir sem precisar performar perfeição, algo raro no universo digital.
O teatro devolve algo que a lógica digital roubou, a chance de sentir sem filtros. No jogo teatral, não existe algoritmo escolhendo o que é relevante. Existe gente. Corpo. Emoção. Presença. Existe o direito ao improviso, ao tropeço, à vulnerabilidade, sensações que não costumam render muitos likes, mas que fazem um bem enorme à saúde emocional.
Para uma geração pressionada a performar o tempo todo, o teatro oferece a possibilidade de simplesmente existir. De experimentar o mundo sem precisar transformá-lo em conteúdo. De conviver sem precisar competir. De ser, antes de parecer.
Não se trata de demonizar as redes, pois quando usadas de forma consciente, também conectam, informam, criam mundos. Mas é preciso reconhecer que nenhum scroll infinito substitui o poder transformador de uma experiência compartilhada. Em tempos de hiperconectividade, o teatro vira quase um ato de resistência, pois contracena com a pressa, desacelera a mente, devolve o corpo para o próprio usuário.
Se a Geração Z vive um excesso de telas e uma carência de vínculos, talvez o palco seja justamente o lugar onde ela reencontra o que perdeu: o afeto, a presença, o outro e, principalmente, a si mesma.
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