Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 20:11
Ji Seung-ryeol tem 41 anos e se orgulha do seu senso de moda.>
Ele publica frequentemente suas selfies no Instagram e, como todos sabem, quanto mais curtidas você conseguir, mais popular você é.>
Ji ficou perplexo ao descobrir que homens da sua idade se tornaram objeto de ridicularização online na Coreia do Sul, por adotarem estilos associados à geração Z (os nascidos entre 1995 e 2010) e aos millennials mais jovens.>
Viralizaram nas redes sociais sul-coreanas caricaturas geradas por inteligência artificial sobre esta faixa etária: um homem de meia-idade vestindo roupas streetwear e segurando um iPhone. São os chamados "jovens de 40".>
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Os memes fizeram com que os adorados tênis Air Jordan da Nike e camisetas da moda de Ji se tornassem alvo de brincadeiras — e fonte de muita indignação.>
"Simplesmente uso e visto coisas de que gostava há muito tempo, agora que posso pagar por elas", conta ele à BBC. "Por que preciso ser atacado por isso?">
Consideradas pioneiras do gosto popular nos anos 1990, as pessoas de 40 anos sofreram uma reviravolta da opinião pública após o lançamento do iPhone 17, em setembro do ano passado.>
O smartphone, considerado há muito tempo a eternização da juventude, passou subitamente a ser tratado como uma marca característica da cafonice dos jovens de 40.>
Para Jeong Ju-eun, da geração Z, eles são pessoas que "tentam de tudo para parecer jovens" e "se recusam a aceitar que o tempo passou".>
Os números parecem refletir esta mudança.>
A maioria dos jovens sul-coreanos ainda prefere o iPhone ao Samsung Galaxy. Mas, no ano passado, a parcela de mercado da Apple caiu em 4% entre os consumidores da geração Z e aumentou em 12% entre as pessoas na casa dos 40 anos, segundo pesquisa do instituto Gallup.>
Algo similar ocorreu alguns anos atrás com os chamados millennials geriátricos, nascidos no início dos anos 1980. Na época, seu senso de humor (com emojis chorando de rir e tatuagens de bigode no dedo) foi ridicularizado como cringe — gíria de origem inglesa para algo que causa constrangimento.>
O debate sobre os millennials geriátricos gerou brincadeiras autodepreciativas, reflexões e testes para determinar de qual lado você estava — se deveria promover as provocações ou se submeter a elas.>
Estas mesmas tendências se mantiveram na Coreia do Sul, agora, com os jovens de 40.>
Na Coreia do Sul, a diferença de idade, mesmo que seja de um ano, forma a base da hierarquia social.>
A idade é uma das primeiras coisas que os estranhos perguntam uns aos outros. Ela define o tom das interações futuras: como eles se comunicam, quem abre a garrafa de soju nas festas (normalmente, é quem tem mais idade) e a forma de virar o copo da bebida (sempre de costas para os mais velhos).>
Mas os memes dos jovens de 40 também representam o ceticismo cada vez maior dos jovens coreanos em relação a esta reverência quase forçada aos mais idosos.>
Há poucos anos, o termo kkondae também esteve na moda entre os jovens sul-coreanos. Ele descreve uma irritante espécie de idosos rígidos e condescendentes.>
As redes sociais exacerbaram esses atritos. Nelas, "diversas gerações se misturam no mesmo espaço", segundo o professor de sociologia Lee Jae-in, do campos Sejong da Universidade da Coreia. >
Para ele, "o antigo padrão, em que diferentes gerações consumiam espaços culturais separados, praticamente desapareceu".>
Popularizada nos círculos de marketing nos anos 2010, a expressão "jovem de 40" identificava originalmente consumidores com sensibilidade jovem.>
Eles eram conscientes com a saúde, ativos e confortáveis com o uso da tecnologia. Por isso, eram um alvo demográfico importante para as empresas.>
"No passado, as pessoas na casa dos 40 anos já eram consideradas velhas", afirma o analista de tendências Kim Yong-sup, amplamente creditado pela criação da expressão "jovem de 40".>
Com o aumento da idade média na Coreia do Sul, essas pessoas "deixaram de ficar à beira da terceira idade e passaram a ocupar posição central na sociedade", segundo ele.>
Mas o termo de marketing passou por uma virada sarcástica e viralizante.>
No ano passado, a expressão "jovem de 40" foi mencionada na internet mais de 100 mil vezes — mais da metade delas, em contexto negativo, segundo a plataforma de análise SomeTrend.>
Muitas vezes, a expressão apareceu ao lado de palavras como "velho" e "repugnante".>
Um meme derivado da expressão é "doce jovem de 40", uma designação sarcástica para homens de meia-idade que gostam de paquerar mulheres jovens.>
Alguns consideram que as brincadeiras sobre os jovens de 40 são uma forma de zombar de pessoas de sucesso. Afinal, eles estão no auge da carreira e acumularam riqueza em tempos de estabilidade econômica e no boom do setor imobiliário.>
Do outro lado, estão os jovens millennials e a geração Z. Eles nasceram duas décadas depois e enfrentam a disparada dos custos de moradia e a feroz concorrência no mercado de trabalho.>
Para eles, os jovens de 40 representam "a geração que teve sucesso pouco antes de se fechar a porta das oportunidades", segundo a psicóloga Oh Eun-kyung.>
"Eles não são vistos apenas como indivíduos com gostos pessoais, mas como símbolos de privilégio e poder", afirma ela. "É por isso que a energia do deboche se concentra neles.">
Mas Ji Seung-ryeol, o entusiasta da moda de 41 anos que viveu na chamada era de ouro, conta outra versão desta história.>
Como jovem formando que entrou no mercado de trabalho durante a crise financeira da Ásia no final dos anos 1990, ele se lembra de mandar cerca de 70 currículos para conseguir um emprego.>
Para ele, sua geração "aproveitou muito pouco enquanto crescia e só começou a usufruir das coisas mais tarde, na idade adulta".>
Agora, no seu ambiente de trabalho, ele costuma se sentir preso entre dois mundos distintos.>
A geração acima dele criou um "sistema rígido, vertical, onde você faz o que mandam". E, abaixo dele, surge "uma geração que pergunta 'por quê?'".>
"Somos uma geração que vivenciou duas culturas", descreve ele. "Ficamos presos no meio do caminho.">
A capacidade de atravessar duas gerações já foi motivo de orgulho. Mas Ji afirma que passou a ficar inseguro ao interagir com seus colegas mais jovens, por medo de ser considerado kkondae, ou jovem de 40.>
"Hoje em dia, raramente promovo reuniões para beber", ele conta.>
"Tento manter as conversas concentradas nas preocupações do trabalho ou da carreira e só compartilho histórias pessoais quando as discussões se aprofundam naturalmente.">
Para Kang, que também tem 41 anos e anda na moda, no centro do meme dos jovens de 40 há um desejo profundamente humano.>
"Conforme você fica mais velho, buscar a juventude se torna totalmente natural. Querer parecer jovem é algo presente em todas as gerações.">
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