Acreditem ou não, mas existe algo que liga estas três manifestações distintas e distantes: a entrada em campo dos jogadores do Barcelona, da Espanha; os desfiles dançantes que acontecem em diversos lugares do Brasil; e a tarefa de desfazer os enfeites de Natal das casas.
Soma-se à pitoresca situação o fato de o Espírito Santo ter participação fundamental nisso.
Eu explico.
Na última terça-feira, 6 de janeiro, foi comemorado o Dia de Santos Reis. Na tradição católica, celebra-se a visita dos Reis Magos Belchior, Baltazar e Gaspar a Jesus Cristo. Tal passagem bíblica motivou o surgimento de uma manifestação cultural de origem portuguesa, chamada de Folia de Reis, que consiste em um cortejo realizado por diversos grupos.
Com muita música e dança, o desfile é feito em forma de encenação, reproduzindo a peregrinação dos Reis Magos até à manjedoura de Cristo. Nas encruzilhadas da história, mais precisamente na colonização, as Folias de Reis chegaram a terras brasileiras e aqui, como quase tudo que foi fruto da imposição da fé católica, foram repaginadas com elementos africanos e indígenas.
Como se alastrou por praticamente todo o território brasileiro, variações na formação dos grupos e na execução da manifestação surgiram, reproduzindo características próprias de acordo com cada região.
Relatarei aqui um apanhado das folias capixabas, que coletei nas andanças e pesquisas sobre nossa cultura.
As Folias costumam ir às ruas no período entre 24 de dezembro e 6 de janeiro. Realizam cortejos que simulam a ida dos Reis Magos ao encontro de Jesus Cristo, passando por casas de pessoas conhecidas, comércios e locais importantes da comunidade. Em cada ponto, o receptor costuma ofertar um lanche para o grupo.
Cada grupo tem, em média, 12 pessoas, entre tocadores, o mestre e os palhaços, número que está relacionado ao número de apóstolos que Jesus Cristo reuniu em suas caminhadas. Destrinchando tais figuras, o mestre se destaca por ser o responsável por guiar o grupo no cortejo, tanto no trajeto, quanto nos cantos entoados, ocupando uma figura de liderança. Os tocadores empunham instrumentos, como caixas, taróis, pandeiros, triângulos, violões e sanfonas, e são, também, responsáveis por fazerem coro aos cantos.
Já o palhaço, um dos principais símbolos do grupo, tem a função de animar e divertir os presentes, e a sua origem é baseada em diversas versões.
Há quem diga que ele seria o diabo, que atormenta o cortejo para atrapalhar a chegada dos Reis Magos a Jesus.
Outra versão afirma que o palhaço seria um soldado de Heródes, liderança romana que ordenou a caça e morte a Jesus. Sendo um soldado, existem duas interpretações: a do soldado que está presente, em disfarce, apenas para atrapalhar a chegada a Jesus, assim como o diabo; e a do soldado que se converteu ao cristianismo e, disfarçado, acompanha o cortejo para encontrar o seu Messias.
Já me foi relatado, também, uma versão que afirma que o palhaço é, na verdade, a representação de Baltasar, o único negro dentre os Rei Magos e que, por causa da sua cor, foi impedido de ir ao encontro de Jesus. Encontrou na fantasia de palhaço a fórmula para se camuflar do racismo e cumprir sua missão divina.
Retornando às manifestações de que falei lá no começo, além da data dos tradicionais cortejos, o Dia de Reis também ficou fixado como a data de retirar os enfeites de Natal das casas, principalmente desmontar a árvore, porque, em tese, representa o fim do ciclo natalino.
Já os cortejos, acontecendo em um período propício para adesão popular, se espalharam pelo Brasil, e no Espírito Santo não foi diferente. No interior de Cachoeiro de Itapemirim, na virada do século XIX para o XX, um refrão entoado pelas Folias ficou na cabeça de uma das mulheres que o ouviu. Ela o cantava frequentemente, lavando roupa, realizando seus afazeres, descansando. Seu filho, Adil de Paula, de tanto ouvir sua mãe cantarolar, também ficou com ele na mente e, futuramente, o projetaria para o mundo.
Adil, mais conhecido como Zuzuca, foi morar no Rio de Janeiro e, ao compor um samba para participar da disputa de samba-enredo da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, diante da necessidade de criar um refrão, não hesitou e enfiou os versos das Folias de Cachoeiro na obra. O samba-enredo de Zuzuca foi o escolhido para representar a Vermelha e Branca da Tijuca no carnaval de 1971 e o refrão, que possivelmente você já escutou em algum momento da vida, foi a grande atração daquele ano:
O-lê-lê, ô-lá-lá,
Pega no ganzê
Pega no ganzá
Os versos leves, animados e fáceis de serem cantados ganharam uma repercussão absurda. Viraram paródia de brincadeira de rua, de jingle político, chegaram aos estádios de futebol e, do Brasil, foram parar na Europa. Atualmente, são cantados logo após o hino do Barcelona, quando a equipe entra em campo, com a seguinte letra adaptada:
O-lê-lê, ô-lá-lá,
Ser del Barça és [ser do Barça é]
el millor que hi ha [o melhor que há]
Poucos sabem que aquela música, usada para embalar a equipe que é colocada como uma das maiores do mundo, tem origem na cultura popular capixaba, nascida no interior de Cachoeiro de Itapemirim e é fruto do sincretismo de tradições e povos.
E já que colocamos música e espetáculo na conversa, permitam-me, para finalizar, citar um outro fato que, ao meu ver, resume toda grandeza das Folias de Reis e cruzamentos da nossa cultura popular.
Quando a Chegou o que Faltava, escola de samba da Grande Goiabeiras, entrou na avenida no último carnaval, seu samba, que falava das manifestações culturais do território, foi categórico ao falar:
“São reis e rainhas da vida!”
Ao acrescentar a sentença “da vida”, o samba, de forma genuína, representa toda a nobreza presente nos cortejos de Reis e em todas outras manifestações culturais existentes em nosso país e que, por vezes, é negligenciada. Aqueles homens e mulheres, ou melhor, Reis e Rainhas, que lutam diariamente pela sobrevivência e ainda tiram tempo para fazerem cultura, quando munem-se das vestes reais, ocupam uma posição hierárquica que jamais seria possível em uma sociedade que os sentenciam à ocupação perpétua da base social.
Além de reivindicação histórica e de reestruturação, embora simbólica, de reinados derrotados pela perversidade humana, as Folias de Reis são a recriação de um mundo em que anônimos sociais podem, mesmo que apenas por um dia, se iluminarem com os holofotes da vida.
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.
