É advogado. Doutor e Mestre em Direito pela Universidade de São Paulo (USP)

Como a tutela do eleitor empobrece a discussão democrática

Essa lógica tem o potencial também de gerar um efeito inibidor sobre discussões relevantes de política externa e alinhamentos internacionais

Vitória
Publicado em 15/01/2026 às 02h30

As cortes no Brasil têm assumido, em diversos temas, um papel de protagonismo crescente. Em certas decisões, interpretações expansivas do texto constitucional e legal acabam produzindo efeitos que se aproximam da criação de novas regras, em tensão com a jurisprudência consolidada ou com opções expressas do constituinte e do legislador ordinário.

O ponto central é que essa busca pelo “justo” e pelo “correto”, embora frequentemente agrade a cidadãos alinhados às premissas da decisão, pode impor um custo democrático relevante no longo prazo.

Quando escolhas políticas são feitas por representantes eleitos, há um custo inerente à democracia: os responsáveis podem ser premiados ou punidos pelo voto ao final do mandato. Mas, quando decisões judiciais passam a definir, na prática, elementos centrais de políticas públicas ou do próprio debate público, elas são tomadas por autoridades dotadas de garantias institucionais como estabilidade e inamovibilidade. Nesses casos, não existe um mecanismo equivalente de escrutínio popular direto capaz de convalidar ou invalidar as escolhas feitas durante o período.

Um exemplo ajuda a ilustrar a preocupação. Durante o pleito de 2022, no âmbito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), houve decisões determinando a remoção de conteúdos que associavam o então candidato Lula a líderes estrangeiros como Daniel Ortega, da Nicarágua, e Nicolás Maduro, da Venezuela, sob fundamentos ligados à integridade do processo informacional eleitoral — entre eles, o conceito de “desordem informacional”, utilizado em decisões daquele período para justificar restrições a certos conteúdos.

O risco de fundamentos dessa natureza — quando aplicados para além de falsidades objetivamente verificáveis — é abrir margem para um controle judicial do debate que não se limita a punir mentiras claras, mas passa a avaliar a narrativa e a inferência política que o eleitor pode extrair de fatos, associações e registros públicos. Na prática, isso pode produzir um efeito de tutela excessiva da deliberação eleitoral, com a redução do espaço para críticas e comparações políticas legítimas, além de aumentar a incerteza sobre o que pode ou não pode ser dito.

Essa lógica tem o potencial também de gerar um efeito inibidor sobre discussões relevantes de política externa e alinhamentos internacionais. Ao restringir associações políticas e comparações com regimes estrangeiros, corre-se o risco de diminuir a transparência do debate sobre preferências ideológicas, aproximações diplomáticas e suas consequências — tema essencial para o voto informado. Quando isso ocorre, o Judiciário não apenas limita uma crítica política possível, como pode reduzir o acesso do eleitor a elementos que, para muitos, são relevantes para avaliar prioridades e rumos do país.

O custo desse caminho aparece quando decisões que comprimem o debate público produzem precedentes e sinalizações institucionais que, no futuro, tornam mais difícil o escrutínio político de escolhas sensíveis. Ao deslocar o centro da deliberação — do embate público e do voto — para um regime de restrições preventivas sobre inferências e associações políticas, corre-se o risco de empobrecer a discussão democrática justamente nos temas em que o eleitor mais precisa de informação.

Sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília
Sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília. Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Esse risco se torna mais visível à luz do cenário internacional recente. O noticiário traz, com frequência, imagens e relatos duros vindos de regimes autoritários — como a situação de presos políticos e a dinâmica de repressão e barganhas políticas em ditaduras latino-americanas, além da escalada e das tensões envolvendo o Irã, cuja estrutura de poder combina elementos religiosos, repressivos e geopolíticos com impacto direto na estabilidade regional. Especialmente de violência desenfreada e da anulação de todo e qualquer direito da mulher.

Em momentos como esse, o debate eleitoral sobre afinidades políticas, alinhamentos e sinais diplomáticos não é um detalhe retórico: é um componente da capacidade de uma sociedade antecipar custos, cobrar coerência e limitar danos. Quando o espaço de crítica é reduzido por critérios abertos — que não se prendem a falsidades objetivas, mas a “conclusões” supostamente indevidas —, quem perde não é um lado da disputa, mas o próprio eleitor, que passa a decidir com menos contraste e menos informação.

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