Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 07:11
O presidente americano, Donald Trump, afirmou que os Estados Unidos adotarão "medidas muito duras" contra o Irã caso o país execute manifestantes. Organizações de direitos humanos dizem que mais de 2.400 pessoas que protestavam contra o governo do Irã foram mortas em uma violenta repressão conduzida pelas autoridades iranianas.>
Erfan Soltani, 26, detido na semana passada (08/01), deverá ser executado na quarta-feira (14/01), disseram familiares de Soltani à BBC Persian (serviço em persa da BBC).>
Um parente de Soltani disse à BBC Persian que um tribunal iraniano havia emitido a sentença de morte "em um processo extremamente rápido, em apenas dois dias". Um representante do grupo de direitos humanos Hengaw afirmou à BBC que "nunca tinha visto um caso avançar tão rapidamente".>
Awyar Shekhi, representante da Hengaw, disse que o caso de Soltani demonstra que o governo iraniano está "usando todas as táticas que conhece para reprimir as pessoas e espalhar medo".>
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Em entrevista à CBS News, parceira americana da BBC, Trump falou sobre as possíveis execuções: "Se eles os enforcarem, vocês vão ver algumas coisas... Vamos tomar medidas muito duras se fizerem isso".>
Trump disse anteriormente que planejava participar de uma reunião na Casa Branca na noite de terça-feira (14/01) para discutir a situação no Irã, prometendo obter "números precisos" sobre o total de mortos nos protestos.>
A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), sediada nos EUA, afirmou ter confirmado a morte de 2.403 manifestantes, além de 12 crianças, apesar do bloqueio da internet. Quase 150 pessoas ligadas ao governo também foram mortas, segundo o grupo.>
Um funcionário iraniano disse à agência de notícias Reuters que 2.000 pessoas haviam sido mortas, mas que a responsabilidade seria de "terroristas".>
"Parece que o número de mortes é significativo, mas ainda não sabemos com certeza", disse Trump a repórteres ao retornar à Casa Branca.>
Segundo Trump, assim que ele tiver os números, "agiremos de acordo".>
Mais cedo, na terça-feira (13/01), Trump escreveu em sua plataforma Truth Social que as autoridades iranianas "pagarão um preço alto" pelas mortes e incentivou as pessoas a "continuarem protestando".>
"Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que a morte sem sentido de manifestantes PARE. A AJUDA ESTÁ A CAMINHO. MIGA!!!", acrescentou, usando a sigla de um slogan da oposição iraniana sediada nos EUA que significa "Faça o Irã Grande Novamente", em tradução livre, e faz referência à sigla trumpista MAGA ("Faça a América Grande Novamente", em tradução livre).>
Trump vem avaliando opções militares e outras medidas em resposta à repressão, depois de já ter anunciado tarifas de 25% sobre qualquer país que mantenha comércio com o Irã.>
O governo iraniano reagiu acusando os EUA de tentar "fabricar um pretexto para intervenção militar" e alertou que "esse roteiro já falhou antes".>
Os protestos, que teriam se espalhado por 180 cidades e municípios das 31 províncias do país, começaram em meio à indignação com o colapso da moeda iraniana e o aumento acelerado do custo de vida.>
Esses protestos se expandiram rapidamente, se transformando em reivindicações por mudanças políticas e se tornaram um dos desafios mais sérios ao regime clerical desde a revolução islâmica de 1979.>
Os atos se intensificaram de forma significativa na quinta-feira (08/01) passada e foram reprimidos com força letal pelas autoridades, em meio a um bloqueio quase total da internet e dos serviços de comunicação.>
Mais de 18.434 manifestantes foram presos durante os protestos, segundo a agência de ativistas HRANA.>
É difícil avaliar a real escala do derramamento de sangue porque, assim como outras organizações internacionais de notícias, a BBC não consegue reportar de dentro do país.>
Ainda assim, vídeos publicados on-line no domingo (11/01) mostraram pessoas procurando os corpos de parentes e amigos no Centro Forense de Kahrizak, em Teerã (Irã). A BBC contabilizou ao menos 180 corpos envoltos em mortalhas e sacos mortuários nas imagens.>
Cerca de 50 corpos podiam ser vistos em outro vídeo no mesmo local, divulgado na segunda-feira (12/01).>
"Meu amigo foi até lá [Kahrizak] procurar o irmão e acabou esquecendo a própria dor", contou um ativista à BBC Persian na segunda-feira (12/01).>
"Eles empilharam corpos de todos os bairros, como Saadatabad, Naziabad e Sattarkhan. Então você vai até a pilha de corpos correspondente ao seu endereço e procura ali. Você não faz ideia nem de uma fração do nível de violência que foi usada.">
Hospitais da capital iraniana, Teerã, também teriam ficado sobrecarregados pelo número de feridos.>
O professor Shahram Kordasti, oncologista iraniano radicado em Londres (Reino Unido), disse ao programa Newsday, da BBC, na terça-feira (13/01), que a última mensagem recebida de um colega em Teerã afirmava: "Na maioria dos hospitais, a situação é como em uma zona de guerra. Estamos com falta de suprimentos, falta de sangue.">
Outros médicos de "dois ou três hospitais" também relataram ter atendido centenas de pessoas feridas ou mortas, acrescentou.>
Um iraniano que vive em Rasht (Irã), perto da costa do mar Cáspio, descreveu a cidade como irreconhecível. "Tudo foi queimado pelo fogo", disse.>
O chefe de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Volker Türk, pediu às autoridades iranianas que interrompam imediatamente todas as formas de violência e repressão contra manifestantes pacíficos. A informação foi divulgada pelo gabinete de Türk.>
Türk acrescentou, ainda segundo seu gabinete, que rotular os manifestantes como "terroristas" para justificar a violência é inaceitável e classificou como "extremamente preocupantes" as declarações de autoridades iranianas que indicam a possibilidade de aplicação da pena de morte contra manifestantes por meio de julgamentos acelerados.>
O chefe do Poder Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni Ejei, afirmou na segunda-feira (12/01) que os envolvidos nas manifestações seriam "tratados com seriedade e severidade". Promotores também disseram que alguns serão acusados de "inimizade contra Deus", crime contra a segurança nacional que prevê a pena de morte.>
Türk também exigiu que as autoridades iranianas restabeleçam imediatamente o acesso pleno à internet e a outros serviços de comunicação.>
Algumas ligações internacionais feitas a partir do Irã conseguiram ser completadas na terça-feira (13/01), mas o bloqueio da internet já ultrapassou 132 horas, segundo o monitor NetBlocks.>
Uma pessoa que vive perto de Teerã e tem acesso à rede por meio do serviço de satélite Starlink disse à BBC Persian que havia "postos de controle em cada quarteirão", nos quais carros e os celulares de seus ocupantes eram inspecionados pelas forças de segurança.>
Novos vídeos de protestos registrados nos últimos dias também vieram a público, com a BBC Persian verificando imagens gravadas nas cidades iranianas de Arak, Tabriz, Urmia e Khorramabad.>
Nas imagens de Khorramabad, é possível ouvir disparos durante confrontos entre forças de segurança e manifestantes, alguns dos quais atiram pedras.>
Os manifestantes entoam slogans como "Morte ao ditador", em referência ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, e "Reza Shah, que sua alma descanse em paz", em alusão ao monarca Mohamed Reza Pahlavi, deposto na Revolução Islâmica de 1979, cujo filho, Reza, vive no exílio.>
Pahlavi reinou como monarca do Irã, um xá, durante 37 anos.>
Nesse período, o país experimentou um processo de ocidentalização e crescimento econômico, enquanto buscava recuperar o orgulho nacional e a história pré-islâmica do Irã, segundo descreve o jornalista Ali Hamedani, do serviço persa da BBC.>
Na década de 1960, as mulheres conquistaram o direito ao voto e passaram a ter direitos relativamente semelhantes aos dos homens, mas, ao mesmo tempo, o xá enfrentava duras críticas pelo seu estilo autocrático e pela falta de democracia.>
Muitos se recordam da era Pahlavi como uma época de rápida modernização e vínculos mais estreitos com o Ocidente (os EUA eram aliados de Pahlavi, por exemplo). Outros, no entanto, se lembram de uma época marcada pela censura e pela temida polícia secreta Savak, o serviço de inteligência e segurança interna do Irã entre 1957 e 1979.>
O clero muçulmano xiita acusava o xá de ir contra os valores islâmicos, enquanto os grupos de esquerda, influenciados pela extinta União Soviética, pediam por mais igualdade dentro do país.>
Até meados de 1978, poucos podiam imaginar uma revolução capaz de transformar profundamente o Irã.>
Mas, em poucos meses, os protestos envolveram intelectuais de esquerda, nacionalistas, secularistas e islamistas, no que ficou conhecido como a Revolução Iraniana ou Islâmica de 1979.>
Ao longo de 1978, os manifestantes contrários ao xá passaram a expressar, cada vez mais fortemente, suas reivindicações em termos religiosos. Até que, no final daquele ano, a retórica islamista começou a ganhar força nas ruas.>
Nesse contexto, o aiatolá Ruhollah Khomeini voltou ao Irã depois de 14 anos de exílio no Iraque e na França por se opor ao regime, posicionando-se como o único capaz de unificar as diversas correntes em torno de um eventual governo islâmico.>
A revolução terminou com a queda da monarquia e abriu espaço para a inauguração da atual República Islâmica.>
Khamenei governa o país desde então, e cumpre o papel de chefe de Estado, além de controlar o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, entre outras funções.>
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