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Crime em Brasília

Réu por bomba em caminhão foi convidado por Magno Malta para falar no Senado

Wellington Macedo teve cargo comissionado no ministério de Damares Alves, a quem chama de amiga. Em 2018, ele foi chamado a colaborar com a CPI dos Maus-Tratos, presidida pelo então senador. Damares foi assessora de Magno

Públicado em 

17 jan 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

O blogueiro cearense Wellington Macedo em agosto de 2021
O blogueiro cearense Wellington Macedo em agosto de 2021. A foto foi postada por ele nas redes sociais com a legenda "Motociata dos pais com o presidente Bolsonaro" Crédito: Reprodução/Facebook
O blogueiro cearense Wellington Macedo tornou-se réu em uma ação penal no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Ele é acusado pelo Ministério Público de ter colocado um artefato explosivo, uma bomba, em um caminhão de combustível em Brasília.
O objetivo, de acordo com a denúncia do MP, obtida pela TV Globo, era "cometer infrações penais que pudessem causar comoção social a fim de que houvesse intervenção militar e decretação de Estado de Sítio".
Em pleno dia 24 de dezembro de 2022, véspera do Natal.
Macedo estava acampado em frente ao Quartel General do Exército. Ele e outros bolsonaristas, inconformados com a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas urnas, incitavam que as Forças Armadas deflagrassem um golpe militar no país.
O blogueiro ocupou um cargo comissionado no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos na gestão de Damares Alves, entre fevereiro e outubro de 2019, no governo Bolsonaro.
Nas redes sociais, como a coluna verificou, Macedo se diz amigo de Damares.
A ex-ministra, senadora eleita pelo Republicanos, por sua vez, foi assessora de Magno Malta (PL). Ele ocupou uma cadeira no Senado de 2003 a 31 de janeiro de 2019. E vai voltar ao cargo no dia 1º de fevereiro de 2023.
No Facebook, o blogueiro bolsonarista Welington Macedo chama Damares Alves de amiga
No Facebook, o blogueiro bolsonarista chama Damares Alves de amiga. A publicação é de 2020, depois que ele já havia deixado o cargo no ministerio Crédito: Reprodução/Facebook
Em 2018, Magno convidou Wellington Macedo a depor na CPI dos Maus-Tratos, presidida pelo então senador.
O requerimento foi apresentado em agosto daquele ano. O blogueiro falaria como colaborador das apurações. E de forma reservada.
"O jornalista investigativo Wellington Macedo de Souza é autor de inúmeras matérias publicadas sobre violência sexual contra crianças e adolescentes no interior do estado do Ceará, deixando claro que muitos dos casos os agressores não julgados ou penalizados. Entendemos necessário que esta Comissão Parlamentar de Inquérito ouça o jornalista para esclarecimentos dos fatos", escreveu Magno no requerimento.
De acordo com uma pessoa próxima ao senador eleito, Damares "tomava conta" da CPI dos Maus-Tratos.
E Macedo esteve no gabinete de Magno Malta para falar com a aliada por diversas vezes. Em algumas delas, conversou também com o senador.
Um mês antes de ser convidado a ir ao Senado, o blogueiro publicou, no YouTube, o vídeo de uma entrevista com Magno. Ele pergunta ao então senador se ele tinha conhecimento sobre denúncias de abuso sexual no Ceará.
Macedo usa estratégias similares às de Magno Malta ao fazer política. O combate à violência sexual contra crianças e adolescentes é uma de suas pautas.
Filiado ao PTB, em 2022 o blogueiro disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo. Não foi eleito.
Ele também foi candidato a vereador, sem sucesso, em 2020, pelo MDB, e em 2012, pelo PSD. Nessas ocasiões, concorreu em Sobral, cidade do Ceará que é reduto do ex-ministro Ciro Gomes (PDT).
Macedo faz oposisão a Ciro.
O réu também é coordenador nacional da Marcha da Família Cristã pela Liberdade, evento apoiado por Magno.
No Facebook, Wellington Macedo destaca o apoio de Magno Malta à Marcha da Família Cristã pela Liberdade, evento organizado pelo blogueiro
No Facebook, Wellington Macedo destaca o apoio de Magno Malta à Marcha da Família Cristã pela Liberdade, evento organizado pelo blogueiro Crédito: Reprodução/Facebook
Na segunda edição da marcha, em 2021, o ex-senador arregimentou apoiadores em Vitória para bradar críticas contra o Supremo Tribunal Federal e elogios à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que marcou, em 1964, o apoio de parte da sociedade civil brasileira à deposição do então presidente da República, João Goulart.
Depois, veio o golpe militar, que resultou em uma ditadura de 21 anos.
A marcha com nome parecido realizada em abril de 2021 em Vitória e outras cidades do país ocorreu em meio à pandemia de Covid-19.
"Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. Queremos tratamento precoce!", discursou Magno, no evento.
Na ocasião, ele criticou as prisões de Oswaldo Eustáquio, outro blogueiro bolsonarista, e do deputado federal Daniel Silveira (Republicanos), por ordem do STF, "só porque ele (Silveira) falou em AI-5".
Meses depois, Wellington Macedo foi preso pela Polícia Federal por incentivar atos antidemocráticos no dia 7 de setembro de 2021.
Em outubro daquele ano, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, autorizou que ele deixasse a cadeia e passasse a cumrprir prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica.
Macedo fez campanha em São Paulo, em 2022, usando o equipamento.
E a tornozeleira também se fez presente, de forma nada discreta, durante o tempo que ele passou acampado em frente ao QG do Exército.
OPERAÇÃO NERO
Antes de colocar a bomba em um caminhão, no último dia 24 de dezembro, o blogueiro já havia participado de outro ataque, a tentativa de invasão da sede da Polícia Federal, também em Brasília.
Isso ocorreu em 12 de dezembro, dia da diplomação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que foi marcado por atos de vandalismo protagonizados por apoiadores de Bolsonaro.
A Polícia Federal e a Polícia Civil deflagraram a Operação Nero para prender os suspeitos, entre eles Macedo.
O blogueiro, entretanto, não foi encontrado.
"Mais uma vez vítima da truculência da polícia política de Alexandre de Moraes. Agentes fortemente armados invadiram meu apartamento, em Brasília, como se eu fosse um bandido de alta periculosidade. Patriotas estão sendo caçados, e o único crime é lutar por um país livre e mais justo. Não aceitamos que nossa nação fique nas mãos de bandidos. O STF tem agido como milícia, soltando bandidos e prendendo cidadãos de bem”, disse o blogueiro, mostrando imagens da ação da polícia", afirmou Macedo, em vídeo publicado nas redes sociais naquele mesmo dia.
Foragido, ele seguiu nos atos golpistas. E ainda pediu que outros "patriotas" lhe enviassem dinheiro via Pix.
A BOMBA
O plano de provocar uma explosão foi orquestrado no acampamento em frente ao quartel do Exército.
De acordo com a denúncia do Ministério Público, Washington de Oliveira Sousa, Alan Diego dos Santos e Welligton Macedo montaram o artefato.
E coube a Macedo colocá-lo em um caminhão de combustível que seguia para o Aeroporto de Brasília.
Se o plano funcionasse, uma tragédia ocorreria em pleno dia 24 de dezembro de 2022, véspera de Natal.
O motorista do caminhão-tanque, entretanto, percebeu um objeto estranho no veículo e chamou a polícia.
A Polícia Militar detonou o artefato em segurança.
Depois da tentativa de cometer o atentado, o blogueiro retirou a tornozeleira, ilegalmente, e fugiu.
Dos três réus acusados de participação no episódio, apenas George Washington está preso.
Aqui, uma observação: Wellington Macedo usou tornozeleira durante todo o tempo em que ficou foragido após a Operação Nero, até o dia 24. O equipamento, inclusive, ajudou a polícia a refazer os passos dele no episódio explosivo, com o perdão do trocadilho.
Por que o blogueiro não foi preso antes então?
Artefato explosivo foi encontrado em caminhão-tanque em Brasília
Artefato explosivo foi encontrado em caminhão-tanque em Brasília Crédito: Divulgação
Damares e Magno não são investigados por participação em atos antidemocráticos.
O PSOL pediu ao STF que inclua o senador eleito pelo Espírito Santo no inquérito que apura quem são os responsáveis pela invasão às sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro. Para o partido, Magno incentivou "atos terroristas".
O senador disse, na ocasião, não apoiar invasões e vandalismos e considerou a ação do PSOL absurda.
O QUE DIZ DAMARES ALVES
"Esclareço que o senhor Wellington Macedo, investigado no caso de tentativa de ato violento em Brasília-DF, prestou serviços no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, entre janeiro e outubro de 2019, quando foi exonerado do cargo", publicou a ex-ministra Damares Alves, no Twitter, nesta segunda-feira (16).
"O referido jornalista não era meu assessor direto. Trabalhou na área de comunicação da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente que, inclusive, funcionava em prédio diferente do Gabinete Ministerial", prosseguiu.
"Repudio todas as tentativas levianas de associar minha imagem às ações dele e/ou do grupo ao qual faz parte. Que todos as denúncias sejam devidamente apuradas e que os culpados por atos ilegais sejam processados e julgados, nos termos da lei", escreveu Damares.
Ela ainda sustenta que "sempre foi uma defensora da democracia".
O QUE DIZ MAGNO MALTA
A coluna tentou contato com Magno Malta por meio de sua assessoria de imprensa. Até a publicação deste texto, ele não havia se manifestado sobre a relação com Wellington Macedo.

Correção

18/01/2023 - 10:54
Originalmente, a coluna registrou que Magno Malta foi senador de 2003 a 2011. Foi um erro, um lapso. Magno foi senador pelo Espírito Santo por 16 anos, de 2003 a 31 de janeiro de 2019. A informação foi corrigida.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.

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