Os movimentos friamente calculados de Marcos do Val
Contém ironia
Os movimentos friamente calculados de Marcos do Val
Senador do ES afirmou que agiu de forma estratégica ao dar diversas versões sobre uma trama golpista que favoreceria o ex-presidente Bolsonaro. Deve ter se inspirado no Chapolin Colorado. Confira a análise
Marcos do Val no plenário do Senado em 1º de fevereiro, véspera do dia em que revelaria uma tentativa de golpe de EstadoCrédito: Geraldo Magela/Agência Senado
Você já deve ter cansado de ler/ouvir sobre o senador do Espírito Santo Marcos do Val (Podemos) nos últimos dias. A coluna publicou informações sobre a trama golpista narrada, em conflitantes versões, pelo parlamentar e mostrou o insólito caso da suplente escolhida ao acaso.
Faltava uma análise. Esperei o tempo passar para ver se, com o surgimento de novos elementos, a história contada pelo senador faria algum sentido. A espera foi em vão.
Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Certamente, algo aconteceu entre a madrugada e o final da manhã da última quinta-feira (2) e fez Do Val mudar a narrativa tão bruscamente.
Primeiro, em uma live (transmissão ao vivo nas redes sociais), o parlamentar disse que o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL) o coagiu a participar de uma tentativa de golpe de Estado.
Horas depois, em entrevista coletiva concedida à imprensa, afirmou que Bolsonaro foi apenas ouvinte das artimanhas do ex-deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ ).
Este, ainda de acordo com o senador, pretendia que Do Val gravasse uma conversa com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribuna Federal (STF), para incriminar o magistrado.
Pelo plano brilhante (contém ironia), Moraes admitiria ter agido ilegalmente contra o presidente da República e seus aliados, seria preso e o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) jamais assumiria o cargo.
Do Val falou outras vezes com a imprensa e se contradisse em todas elas. Em dado momento, contou que o plano golpista foi tramado no Palácio da Alvorada, em outro, que foi na Granja do Torto.
A reunião ocorreu, não tenho dúvidas, pois há prints das mensagens enviadas por Daniel Silveira a Do Val combinando o encontro. O próprio senador forneceu as imagens à Revista Veja.
E interlocutores de Bolsonaro não negam que ele estivesse presente na conversa. Sustentam apenas que o então presidente da República ficou calado ouvindo um deputado sugerir a um senador que grampeasse um ministro da Suprema Corte para impedir a posse de um presidente democraticamente eleito. Coisa corriqueira.
Criminalmente, é controverso enquadrar Bolsonaro. Afinal, a tentativa de golpe nem se concretizou. Politicamente, a situação dele ficou (ainda mais) feia.
O próprio senador se colocou em tal situação. De defensor de Moraes – o parlamentar narrou, em uma das versões, que tentou alertar o ministro sobre os planos de Silveira –, Do Val passou a desmenti-lo.
Negou, por exemplo, que tenha sido orientado pelo magistrado a formalizar a denúncia.
Horas depois, voltou atrás. À GloboNews, disse que recebeu vários pedidos para ficar no cargo. Um deles, vejam só, partiu do senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do homem a quem Do Val acusou de tramar um golpe.
Àquela altura, entretanto, o parlamentar do Espírito Santo já havia livrado a barra do ex-presidente. Rebateu as próprias palavras e disse que não foi coagido por Bolsonaro a gravar Moraes e tudo mais.
MOVIMENTOS FRIAMENTE CALCULADOS
No dia seguinte ao disse-me-disse protagonizado por Do Val, ele fez outra live. Sem nenhum pudor, admitiu que mentiu.
As contradições entre as narrativas, contudo, o senador chamou de "estratégia". “Quem trabalha no setor de inteligência sabe que a gente não faz um histórico de começo, meio e fim. Soltamos informações para cada emissora de uma forma diferente exatamente para ludibriar o inimigo", afirmou Do Val.
“Estou deixando todo mundo tonto. Solto uma informação para um, solto uma informação para outro, solto outra para outro. É importante vocês entenderem isso. Confiem em mim”, exortou aos seguidores no Instagram.
É preciso ser ingênuo ou desprovido de inteligência, porém, para crer que todos os movimentos do parlamentar do Podemos foram friamente calculados.
A não ser que a inspiração seja mesmo o Chapolin Colorado.
POR QUÊ?
O público de fora do Espírito Santo ou os leitores que pouco prestaram atenção na carreira de Marcos do Val até aqui podem estranhar.
Mas a trajetória do senador é repleta de declarações dadas por ele e, após repercussão negativa, desmentidas por Do Val mesmo. Via de regra, ele culpa a imprensa, algum mal entendido ou "o sistema" contra o qual diz lutar.
Agora, o parlamentar bateu o próprio recorde. Conseguiu envolver um ex-deputado federal (que está preso), um ex-presidente da República e um ministro do Supremo em seus ditos e desditos.
É verdade que frases retiradas de contexto ganham sentidos diferentes. Mas não é disso que estamos falando aqui.
Vamos a alguns exemplos:
É bolsonarista ou não é?
Em agosto de 2021, Do Val deu entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, e afirmou exatamente o seguinte:
"Não sou bolsonarista, me tira desse quadradinho aí. Se a maioria da sociedade escolher outro líder, eu vou apoiar o governo porque eu quero que o meu país dê certo".
O site Folha Vitória publicou reportagem reproduzindo as palavras de Do Val. Muitos dos seguidores do senador nas redes sociais são, ou eram, apoiadores de Bolsonaro, e ele recebeu críticas.
Pois ele postou no Instagram um carimbo de "fake news" na matéria. "O que adianta você perguntar para mim o que eu sou se você acredita no que os outros falam...", escreveu, na legenda. A questão é que "os outros", no caso, era o próprio Do Val.
Ele escreveu que a matéria tinha "duplo sentido". O titulo era “Eu não sou bolsonarista”, diz senador Marcos do Val durante entrevista". Um título preciso. "Jamais apoiaria o PT, muito menos o ex-presidente Lula", reforçou o senador.
Do Val já disse mais de uma vez não gostar de ser chamado de bolsonarista. Aliás, repetiu isso na live da madrugada de quinta (2), quando acusou o ex-presidente de coagi-lo a dar um golpe.
Apesar disso, no mandato, fez quase tudo que um bolsonarista raiz faria, de defesa do armamento da população civil a divulgação de medicamentos ineficazes contra a Covid-19, passando por ataques ao STF.
Na campanha de 2018, enquanto ainda disputava a cadeira de senador, pelo Cidadania, Do Val não revelou em quem votaria para a Presidência da República. No segundo turno, já eleito, apoiou Jair Bolsonaro (então filiado ao PSL).
Em 2022, defendeu a reeleição do mandatário.
Os R$ 50 milhões do orçamento secreto
Em julho de 2022, Do Val afirmou, em entrevista ao Estadão, ter recebido R$ 50 milhões em emendas por meio do orçamento secreto, uma forma de destinar recursos da União, sem transparência, normalmente para as bases eleitorais dos parlamentares.
Ele contou, na entrevista, que foi beneficiado com a verba por "gratidão", por ter votado, em 2021, em Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a presidência do Senado.
"Para mim, quem me ligou dizendo foi até o Davi (Alcolumbre), não foi nem o Rodrigo. E aí com o Davi que eu perguntei. Eu achei até muito para eu encaminhar para o Estado (Espírito Santo), mas como (é) questão de saúde (referiu-se à pandemia de Covid-19), eu não vou negar. Eu perguntei: 'Mas teve algum critério?' Ele só falou: 'Aquele critério que o Rodrigo falou para vocês lá no início'. 'Ah, tá, entendi.' Mas ele falou: 'Só que o Rodrigo te colocou no critério como se você fosse um líder pela gratidão de você ter ajudado a campanha dele a presidente do Senado'. Eu falei: 'Poxa, obrigado, não vou negar e vou indicar (as emendas)'".
O repórter até estranhou tamanho "sincericídio" e se certificou de que Do Val havia falado em "on", ou seja, se as declarações poderiam ser atribuídas a ele, ou se gostaria de ser uma fonte anônima. "Pode, pode ser em on. É público, eu já comuniquei isso ao Ministério Público na época (os valores e a destinação dos recursos)", respondeu Do Val.
Obviamente, a entrevista pegou mal para o senador do Podemos, para Alcolumbre, representante do Amapá, e para Pacheco.
A então senadora Simone Tebet (MDB-MS), que havia a presidência da Casa contra Pacheco, não mediu palavras: "A declaração comprova o que já sabíamos, só não podíamos provar. O orçamento secreto comprou a eleição para a presidência do Senado. Perdi a eleição para o orçamento secreto. Eis a versão 2.2 do mensalão".
Diante do tsunami de críticas, Do Val tentou se explicar. Afirmou ter sido "mal interpretado" pelo Estadão. "Peço desculpas por eventual mal entendido".
O jornal publicou o áudio da entrevista. Não havia mal entendido possível.
Para citar apenas mais um exemplo, houve ainda o episódio do salário de Marcos do Val.
Em novembro de 2022, do nada, o senador do Espírito Santo publicou no Twitter um extrato da própria conta, do Banco do Brasil.
O registro mostrava que ele havia usado R$ 1.326,82 do cheque especial e tinha pagamentos agendados no valor de R$ 28.336,07 até 9 de dezembro.
Do Val ainda escreveu, na mesma postagem: "Na minha carreira anterior eu recebia a cada 2 dias o que recebo hoje por mês como senador. E ainda tenho que ouvir ofensas, ataques e ingratidão".
Antes de assumir o mandato, o senador tinha uma empresa, o Centro de Técnicas Avançadas de Imobilização (Cati), que oferecia cursos para integrantes de forças policiais.
O salário bruto de um senador no Brasil era de R$ 33,7 mil em novembro do ano passado.
Em um país em que o salário mínimo era de R$ 1.212, os comentários no tuíte do senador não foram nada lisonjeiros.
O post chamou a atenção até da imprensa nacional. "Marcos do Val reclama de salário de R$ 33,7 mil e diz ter dívidas", publicou o Metrópoles, de Brasília.
Para os que pensam que tenho regalias e salários milionários, segue o extrato da minha conta. Na minha carreira anterior, eu recebia a cada 2 dias o que eu recebo hoje por mês como Senador. E ainda tendo que ouvir ataques, ofensas e ingratidão. Jamais vou me corromper!!!!! pic.twitter.com/OSZ5lsJ1qH
Mais uma vez, diante da repercussão negativa, Do Val emendou as próprias palavras. Negou ter reclamado do salário de R$ 33,7 mil. Voltou às redes sociais para argumentar que o salário, na verdade, era de R$ 19,94 mil.
Esse, entretanto, é o valor líquido, já com descontos, como previdência e Imposto de Renda. O senador deduziu da conta até o pagamento de um empréstimo consignado que retira do contracheque dele cerca de R$ 3 mil mensais.
O salário dos senadores e dos deputados federais foi reajustado. Desde 1º de janeiro de 2023, é de R$ 39.293,32 brutos.
NA DESINFORMAÇÃO, DO VAL É VÍTIMA E ALGOZ
Para fazer justiça, cabe registrar que Do Val foi vítima de desinformação em ao menos uma ocasião.
Quando publicou, na madrugada de quinta-feira (2), que sairia da política definitivamente, elencou um dos motivos.
Apoiadores do senador Rogério Marinho (PL-RN) criticaram o fato de o capixaba ter abraçado Rodrigo Pacheco após as eleições para o comando do Senado, em 1º de fevereiro de 2023.
Nas redes sociais, a imagem do senador do Podemos abraçando Pacheco foi usada para afirmar que ele havia votado para reeleger o então presidente da Casa e, assim, "traído" Marinho.
O voto, frise-se, é secreto. Não há como um tuiteiro provar isso.
O parlamentar do Espírito Santo também abraçou Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), aliado de Pacheco.
No Twitter, senador Marcos do Val rebate crítica por ter abraçado o colega Davi AlcolumbreCrédito: Reprodução/Twitter
Do Val reafirmou ter votado em Rogério Marinho e explicou que apenas cumprimentou Rodrigo Pacheco por serem amigos, embora tenham algumas discordâncias.
Indignado, o senador do Espírito Santo comentou, no Twitter: "Vontade de largar essa porra e voltar para a minha carreira na swat. Eu perdendo a minha saúde sem ver a minha família para ficar lendo isso".
A carreira dele não era bem na SWAT, um tipo de unidade policial especializada, nos Estados Unidos, mas essa é outra história.
No Facebook e no Instagram, Do Val havia postado: "Urgente! Testemunha revela ligação de Adelio Bispo e Jean Wyllys. Jean Wyllys seria o mandante da tentativa de assassinato do presidente Jair Bolsonaro?".
A Polícia Federal já havia concluído, em dois inquéritos, e sob o governo de Bolsonaro, que Adelio Bispo agiu sozinho no episódio da facada desferida no então candidato à Presidência da República, em 2018.
O senador alegou, no processo, que exerceu o direito à liberdade de expressão ao relacionar Wyllys a uma tentativa de homicídio.
TIRO NO PÉ
Diversos analistas tentaram encontrar um sentido oculto nas declarações recentes de Marcos do Val. Ele mesmo afirmou, no último dia 3, que age em sintonia com o ex-presidente Jair Bolsonaro e elencou uma série de "parceiraços".
O objetivo poderia ser fazer o ministro Alexandre de Moraes ser considerado suspeito para julgar casos envolvendo o clã Bolsonaro? Improvável que tal meta seja alcançada, se for o caso.
Como não formalizou a denúncia sobre o grampo quando relatou, oralmente, o episódio a Moraes, oficialmente não há atos do magistrado nesse imbróglio.
Além do mais, o ex-presidente da República perdeu o foro no Supremo, agora que está sem mandato.
O que houve foi a exposição de mais um episódio antidemocrático e tosco protagonizado por Bolsonaro, ainda que levemos em conta a versão de que ele ficou em silêncio enquanto ouvia Daniel Silveira traçar o plano golpista para Do Val.
O senador do Espírito Santo, além de ser alvo do inquérito que apura o suposto falso testemunho, caiu em descrédito. Como se não bastassem os outros momentos em que ele se disse e desdisse.
Quem pode, hoje, acreditar em algo que Do Val diz?
Quando acusou Bolsonaro de o coagir a entrar numa aventura antidemocrática, o parlamentar foi chamado de traidor pelas hostes bolsonaristas.
Agradou, inicialmente, a esquerda e os progressistas, que o incentivaram a contar tudo o que sabia, mas sem comprar o discurso de que Do Val seria um herói da democracia.
Depois, ao mudar a narrativa, gerou desconfiança em todo mundo.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.