Frei Gilson durante oração transmitida pela internetCrédito: Instagram
Atacado pelos progressistas, apoiado pelos conservadores, o agora famoso Frei Gilson está causando polêmica até em uma paróquia no interior do Espírito Santo. A disputa, que já se tornou pública com a circulação de áudios em grupos, opõe fiéis católicos da comunidade Santa Rita de Cássia, em Castelo, contra o bispo de Cachoeiro e o pároco local. Aos fatos.
Tudo começou com a transmissão ao vivo, pelas redes sociais da comunidade, do rosário do frade católico, na madrugada, que foi acompanhada por mais de 1 milhão de pessoas pela internet.
Mas aconteceu que o pároco da Paróquia Nossa Senhora da Penha, à qual a comunidade Santa Rita é subordinada, frei Antônio Rabanal, proibiu que os próximos rosários com o frei Gilson fossem transmitidos pelas redes sociais da igreja Santa Rita, o que acabou revoltando um grupo de fiéis.
Em um áudio ao qual a coluna teve acesso, uma moradora (não identificada) reclama da proibição e chega a acusar o bispo de Cachoeiro, dom Luiz Fernando Lisboa, de ter dado a ordem pela proibição da transmissão do terço do frei Gilson.
Dom Luiz Fernando Lisboa, bispo de Cachoeiro: assessoria nega que ele tenha proibido oração do rosário na igreja Santa Rita de CássiaCrédito: Diocese de Cachoeiro de Itapemirim
“Simplesmente, o nosso bispo nos proibiu de transmitir e rezar o rosário da madrugada com o frei Gilson. Nós demos o aviso (da realização do rosário] aqui na Santa Rita e o pároco mandou esse retorno do bispo nos proibindo de rezar dentro da igreja o rosário”, relatou.
Em tom de desafio, a mulher, no áudio, prossegue e avisa que o rosário com o frei Gilson vai continuar a ser rezado, mas de outra forma.
“Nós vamos rezar sábado que vem do mesmo jeito, porém do lado de fora. Vamos botar telão, vamos botar carro de som e vamos motivar todo o nosso povo. Esse bispo não pode fazer isso o que ele está fazendo com a gente. Já chega os cristãos que estão morrendo mundo afora. Será que vai começar a acontecer isso aqui com a gente também?”, disse a fiel.
A RESPOSTA DA DIOCESE
A coluna indagou à assessoria da Diocese de Cachoeiro se realmente o bispo tinha proibido a transmissão ao vivo do rosário do frei Gilson dentro da igreja de Santa Rita. A assessoria afirmou que o bispo estava viajando, mas adiantou que em momento algum ele soube desse episódio e que não partiu dele a proibição.
"Eu não sou contra que se reze o rosário. Tomara que rezássemos os rosários todos os dias em um monte de horas. Perfeito, maravilhoso, mas agora, sou contra aquilo que pode criar divisão e conflito para a paróquia, para a Igreja, para a sociedade, para a diocese. O pecado não foi rezar, o pecado foi colocar no Instagram"
Frei Antônio Rabanal - Pároco responsável pela comunidade de Santa Rita de Cássia, em Castelo
A assessoria da diocese enviou à coluna um outro áudio, enviado pelo frei Antônio Rabanal aos seus paroquianos, que dá a sua versão para o fato. Segundo o pároco responsável pela Santa Rita, dom Luiz não proibiu a reza do rosário na igreja de Santa Rita de Cássia.
O próprio pároco assume que partiu dele a proibição. “Quero falar qual é a realidade. Não foi o bispo quem proibiu. Quem pediu para parar de rezar o rosário às quatro da manhã, sendo transmitido pelas redes sociais, foi frei Antônio.” A seguir o frade justifica a proibição.
Frei Antônio Rabanal não quer transmissão, nas redes sociais da igreja, do rosário com frei GilsonCrédito: Cordis/Facebook
“Porque tudo que leva à divisão vai contra a Igreja e contra Jesus Cristo. O problema não é rezar com o frei… (esquece o nome do frei Gilson). O problema é colocar vídeo nas redes sociais. Façam como queiram, mas não coloquem nas redes sociais”, adverte o frei Antônio Rabanal, frade espanhol da Ordem dos Agostinianos Recoletos.
No áudio, o pároco também afirma que frei Gilson provoca divisão na Igreja: “Muita gente está contra esse frei, ele tem coisas maravilhosas, mas também tem alguma coisa que entra em conflito com as decisões do Vaticano”.
QUEM É FREI GILSON
Fenômeno da internet e nas redes sociais, frei Gilson, de 38 anos, tornou-se um dos assuntos mais comentados nos últimos dias. O líder religioso é protagonista de um embate que envolve cristãos, bolsonaristas e o campo da esquerda.
Membro da congregação Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, o frade tem reunido fiéis em transmissões ao vivo, realizadas durante as madrugadas, para rezar ao longo da Quaresma, período de penitência e reflexão que antecede a Páscoa.
A fama veio acompanhada de polêmicas. Internautas têm resgatado declarações polêmicas feitas pelo frade, que afirmou que as mulheres foram criadas para “curar a solidão do homem”; Ele também pediu que “os erros da Rússia” não assolassem o Brasil (em uma referência ao comunismo).
Nascido na cidade de São Paulo, Gilson da Silva Pupo Azevedo começou a tocar violão aos 14 anos e aos 18 entrou para a vida religiosa, sendo ordenado sacerdote em dezembro de 2013.
Em março do ano seguinte, assumiu a função de pároco da Paróquia Nossa Senhora do Carmo em Santo Amaro, na zona sul da capital paulista.
O frade, que é defendido por bolsonaristas e até por políticos evangélicos conservadores, faz parte da congregação Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, um ramo da família da Ordem Carmelita, que prega votos de pobreza, castidade e obediência.
Na congregação, frei Gilson lidera o Ministério de Música “Som do Monte”, um grupo de louvor. Cantor, ele acumula cerca de 1,5 milhão de ouvintes mensais no Spotify. Com perfil ativo nas principais redes sociais, o religioso acumula mais de 18 milhões de seguidores.
No documento apresentado em novembro passado, a PF diz que o frade teria recebido a “oração do golpe” feita pelo padre José Eduardo de Oliveira e Silva, de Osasco (SP).
Embora seja um dos 36 indiciados no caso pela PF, o padre José Eduardo não foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Por sua vez, frei Gilson não foi indiciado pela PF, nem denunciado pela PGR.
Iniciou sua história em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De lá para cá, acumula passagens pelas editorias de Polícia, Política, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Também atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 é colunista. É formado em Jornalismo pela Universidade Feedral do Espírito Santo.