Seis dias antes da aguardada rendição incondicional da
Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, o jornal Folha Capixaba, em sua edição de 1º de maio de 1945 (Dia do Trabalhador), estampava, em letras garrafais, a palavra “Anistia” e logo abaixo uma saudação antifascista do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCB) ao
Espírito Santo. Entre os signatários da mensagem comunista, o dirigente Carlos Marighella, que anos depois viria a ser morto pela ditadura militar, em 1969.
“Por intermédio do primeiro número da ‘Folha Capixaba’, enviamos ao povo do Espírito Santo nossas calorosas saudações antifascistas, exaltando a magnífica mobilização do povo para a conquista da anistia. Reafirmamos nossa vontade de continuar lutando pela democratização pacífica do
Brasil”, diz a primeira parte da mensagem do Partido Comunista Brasileiro, que estava em campanha pela anistia aos perseguidos políticos pelo governo de Getúlio Vargas.
E o texto continua: “Ressaltando o valoroso esforço da nossa Força Expedicionária, que contribui com seu sangue para a construção de uma pátria melhor, e cremos no progresso do nosso povo, assegurado pela participação do Brasil como membro das Nações Unidas para a vitória contra o nazifascismo e a organização da paz”, conclui a saudação, assinada também por Agildo Barata, Agliberto Azevedo, Antônio Bento Tourinho e Almir Neves, membros do Comitê Central comunista.
Entretanto, não se resumiu a uma mensagem em jornal a relação de Marighella com o Espírito Santo. Dezoito anos depois da saudação publicada na imprensa, o dirigente comunista esteve no Estado para uma atividade política, segundo lembra Perly Cipriano, dirigente petista e prisioneiro político da
ditadura militar.
Em depoimento à Comissão Estadual da Memória e Verdade, Perly lembrou que em 1963, um ano antes da deflagração do golpe de 64, Marighella veio ao ES fazer uma atividade política no Porto de Vitória. “Ele falou das reformas, ele era um dos que acreditavam que ‘não estava fácil’”, declarou Perly.
O ex-preso político contou que a maior resistência ao golpe de 1964 veio dos trabalhadores de empresas estatais, com destaque para portuários, rodoviários e aeroviários. E foi exatamente o setor portuário que trouxe ao Espírito Santo o lendário dirigente comunista,
personagem do filme “Marighella”, de Wagner Moura, que está sendo exibido em todo o país.
Quando militou na resistência, com panfletagens no centro do Rio e treinamento de guerrilha com o PCBR em São João de Meriti, o
escritor capixaba Maciel de Aguiar disse que Marighella era um referencial de luta contra o regime, mas o grupo não chegou a encontrá-lo quando foi baleado pela polícia na então Guanabara.
"Marighella era quadro do PCB e ídolo de nossa geração, principalmente os jovens militantes do Partidão. Depois da morte dele, o nosso ídolo passou a ser Carlos Lamarca, que morreu na Bahia em 1971", disse Maciel.