Em um encontro que surpreendeu muita gente, o padre Júlio Lancellotti foi recebido em almoço, nesta terça-feira (29), pelo frei Gilson no convento onde o frade carmelita mora na cidade de São Paulo.
O clima de fraternidade entre os dois religiosos acontece dias depois de o padre Júlio comentar, durante uma missa, afirmar que “não adianta rezar o terço às quatro da manhã e depois chutar um morador de rua”, numa referência indireta aos famosos rosários da madrugada do frei Gilson.
“Rezar de madrugada é ótimo, mas, às seis da manhã, é preciso levar um café e um pão para quem vive na rua”, afirmou o padre Júlio, conhecido pelo seu trabalho social com pessoas em situação de rua na capital paulista.
ELOGIOS MÚTUOS
O encontro entre o sacerdote e o frade foi registrado por ambos em suas redes sociais. “Hoje tive a alegria de receber o padre Júlio Lancelotti e o Marcelo [acompanhante do sacerdote] no convento onde moro. Ainda não nos conhecíamos pessoalmente. Foi um momento muito especial: almoçamos juntos, conversamos, rezamos e pudemos conhecer melhor o trabalho um do outro. Foi uma grande alegria receber este meu irmão no sacerdócio”, afirmou o frei Gilson.
Padre Júlio devolveu a gentileza em suas redes: “Hoje eu visitei o frei Gilson, meu irmão querido, e foi uma visita muito agradável. Aquilo que nos une é muito maior do que qualquer coisa que possa nos desunir. Estamos sempre juntos”, escreveu o sacerdote.
DIVERGÊNCIAS NA IGREJA
Os dois religiosos são expressões de vertentes diametralmente opostas na Igreja Católica. Coordenador do Vicariato Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, padre Júlio é vinculado à Teologia da Libertação e é uma personalidade muito querida pela esquerda.
Frei Gilson, por sua vez, é um religioso que professa posições mais conservadoras e é um fenômeno nas redes sociais, com mais de 9 milhões de seguidores no Instagram. Seus rosários rezados de madrugada chegam a reunir mais de 1 milhão de pessoas sintonizadas em seus canais.
Integrante da congregação Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, tem a simpatia expressa do bolsonarismo e do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
As tensões em relação à prática religiosa e ideias do frei Gilson chegam a causar uma crise em uma paróquia da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, no mês passado. Conforme a coluna mostrou, na cidade de Castelo, no Sul do Espírito Santo, ocorreu uma divergência pública entre um grupo de fiéis e um pároco, que foi acusado de impedir as transmissões do rosário do frade nas dependências de uma igreja local.