É um fato tão irrelevante, vindo de onde vem, que a sociedade acabou ignorando mais uma frivolidade da
Câmara de Vitória, que nesta semana aprovou, vejam só, uma “moção de repúdio” ao
ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Fico pensando: será que o ministro conseguiu dormir após ser repudiado pelos nobres edis da vibrante capital capixaba?
A sociedade fez bem mesmo em ignorar mais essa ação tresloucada e inútil do legislativo da Capital, sugerida desta vez pelo veterano vereador Luiz Emanuel Zouain (Cidadania), um velho militante de esquerda que se tornou um bolsonarista ativo nas redes sociais e no parlamento. Em tempo: nada contra as conversões - na Bíblia, tem uma belíssima, a de Saulo para Paulo.
Mas desta vez vou pedir licença à sociedade para não ignorar a moção de repúdio ao ministro acusado pelo vereador de "ofender a Constituição Federal, a liberdade de expressão e atentar permanentemente contra o Estado Democrático de Direito”.
Soa até engraçado: o presidente do TSE, que com muita coragem está conduzindo até hoje o processo eleitoral, garantindo que a democracia e a vontade soberana do eleitor sejam preservadas, é alvo de um grupo de parlamentares de Vitória que, parece, tem um entendimento muito peculiar do que seja “liberdade e democracia”.
Antes de prosseguir é necessário dizer quem é quem nesse teatro do absurdo articulado por alguns vereadores. Votaram contra a moção contra o presidente do TSE: Anderson Goggi (PP), Karla Coser (PT) e Luiz Paulo Amorim (Solidariedade).
Foram favoráveis à moção de repúdio: André Brandino (PSC), Armandinho Fontoura (Podemos), Dalto Neves (PDT), Davi Esmael (PSD), Leandro Piquet (Republicanos), Gilvan da Federal (PL), Luiz Emanuel (Cidadania) e Maurício Leite (Cidadania).
Duda
Brasil (União
Brasil) se absteve. Estavam ausentes: Aloísio Varejão (PSB), Camila Valadão (PSOL) e Denninho Silva (União
Brasil).
A moção de repúdio contra o presidente do TSE é apenas mais um ingrediente na salada de irrelevâncias servida por alguns vereadores de Vitória, seja no parlamento propriamente dito ou nas redes sociais, território por excelência de bizarrices.
Está faltando uma moção contra a homofobia do Qatar, mas essa odiosa prática não é abominada por todas suas excelências. Fiquemos de olho nos talibãs capixabas.
Mais recentemente, o presidente da Câmara, Davi Esmael, correu às redes sociais e, querendo demonstrar irritação “cívica” (sim, isso está acontecendo nesses tempos de patriotas de ocasião),
criticou uma “informação” sobre o futuro ministério do presidente Lula. Detalhe: o texto era ficcional e foi produzido por uma roteirista de novela que escreve na Folha de S. Paulo.
A própria colunista foi também às redes sociais para “desenhar” para o presidente da CMV e explicar que o texto era uma ironia. Mas Esmael continuou insistindo na ameaça apocalíptica produzida pela sua fértil imaginação. Desta vez, não só os cidadãos de Vitória sentiram vergonha alheia; o vexame foi nacional.
Será que em uma cidade com tantos problemas sociais, com mobilidade urbana reduzida, poluída, acossada pela violência e que precisa ser revitalizada, principalmente o seu Centro Histórico, não haveria pautas mais relevantes para ocupar o tempo dos vereadores?
Vitória é uma ilha, mas não está imune às mazelas que atingem a grande maioria das médias e grandes cidades
brasileiras. Numa capital, era de se esperar que houvesse um Legislativo com pautas mais sérias, contemporâneas e antenadas com os avanços da sociedade.
Desperdiçar tempo, energia e dinheiro votando uma moção de repúdio ao presidente do TSE é ocupar a agenda da cidade com mais uma inutilidade. A atual legislatura da Câmara da Capital, com honrosas exceções, se transformou numa confraria de irrelevantes.
Alexandre de Moraes, certamente indiferente a essa ópera-bufa, continua dormindo o sono dos justos; o pesadelo fica reservado para quem tem que bancar esse espetáculo deprimente em Vitória. Será que vamos acordar em 2024?