Gilvan Vitorino em cima de um viaduto da Marginal Tietê, na capital paulistaCrédito: Ludimar Costa Schreider
Pedalar é preciso, ainda mais quando um AVC por pouco não interrompe uma vida. Esta lição foi aprendida, da forma mais dolorosa, pelo advogado capixaba Gilvan Vitorino, que acaba de retornar da sua terceira longa viagem de bicicleta, o meio que encontrou para superar seus problemas de saúde.
Vitorino, de 54 anos, tomou um susto, há cerca de três anos, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Era um aviso contundente: ou muda o estilo de vida ou a sua vida não vai resistir. E o advogado voluntário da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Vitória escolheu mudar. E pedalar.
A primeira grande viagem foi feita em fevereiro passado, entre Vitória e Rio de Janeiro, um trajeto de 616 quilômetros e seis dias de pedal. Foi o mais difícil porque o advogado cumpriu a maratona sozinho e usou uma bicicleta comum, não adequada para grandes distâncias.
Nas outras duas viagens, Gilvan Vitorino comprou uma bicicleta mais moderna, leve e resistente e teve a companhia de um primo. Com a nova bike, fez uma viagem doméstica, percorrendo municípios do Norte, Noroeste e da Região Serrana capixaba. Ele saiu de Vitória e passou por Linhares, São Mateus, Nova Venécia, São Gabriel da Palha, Colatina e Santa Teresa.
Nesta segunda viagem, em abril (570 quilômetros e cinco dias de pedal), um imprevisto e ao mesmo tempo uma lição de vida: quando os dois ciclistas deixaram o hotel em que estavam hospedados em Linhares, já distantes 25 quilômetros rumo a São Mateus, eles descobriram que parte da bagagem ficou no estabelecimento, inclusive a carteira do acompanhante de Gilvan Vitorino.
O advogado capixaba pedala pelo acostamento da Via Dutra, entre São Paulo e RioCrédito: Ludimar Costa Schreider
Eles então comunicaram à direção do hotel a perda do material e, para surpresa dos ciclistas, funcionários do estabelecimento foram de carro levar os objetos esquecidos. “Eles foram muito gentis, fiquei encantado com a direção do hotel e com seus funcionários”, elogia o advogado.
A terceira viagem foi concluída na semana passada. A dupla partiu da cidade de São Paulo rumo ao Rio de Janeiro. Na Via Dutra, eles pegaram o acesso a Cunha e Paraty e continuaram a viagem pela BR 101 até a Cidade Maravilhosa, num percurso de 600 quilômetros e cinco dias de pedal. “Fisicamente, esta terceira viagem foi a mais difícil. As serras da estrada de Guaratinguetá a Paraty, via Cunha, são muito pesadas, com muita altitude.”
Nas viagens, Gilvan Vitorino e seu primo levam suas bikes em bagageiros de ônibus até os locais onde iniciam a aventura. Eles não tiveram patrocinadores, mas o custo da aventura foi baixo, segundo o advogado, porque optaram por se hospedar em locais simples e comer alimentos do dia a dia. O que mais ingeriram foi água, por motivos óbvios.
Com três viagens no currículo só neste ano, o advogado não quer parar mais e promete outras viagens ainda não definidas. A saúde, claro, agradece. “Eu tinha triglicerídeos muito altos. Passei a ingerir menos carboidratos. Eu tinha uns sete quilos a mais do que tenho atualmente. Hoje pedalo umas quatro vezes por semana”, conta.
E qual o lugar mais bonito que ele viu nessas três viagens? A resposta de Gilvan pode surpreender, haja vista que ele percorreu parte da belíssima Costa Verde (Rio-Santos) e até o Rio de Janeiro. “O lugar mais espetacular, porque já o conheço há muito tempo, continua sendo o Porto de São Mateus, visto de baixo, e Vale do Cricaré visto do mirante.”
Gilvan no Porto de São Mateus, paisagem que continua encantando o ciclistaCrédito: Ludimar Costa Schreider
Nas andanças pelas estradas da vida, Gilvan diz que conheceu novos lugares e novos olhares, mesmo em locais já visitados por ele. Viu o lado bom e ruim da vida: “Foram momentos de muita reflexão. Muito se fala de insegurança, pessoas se admiraram, até me desencorajaram, temendo alguma coisa, mas não tive problema algum. Senti-me seguro, mas em São Paulo, vi que a rua está cheia de sem-teto”, lamenta.
A recompensa pela ousadia: “Encontrei pessoas encantadas com a viagem, confessando sua vontade de fazer algo assim em algum momento da sua vida”. E a lição de vida: “O caminho é tão importante quanto o destino. É preciso aproveitar cada momento”.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.