“Minha inflação é muito maior que a do governo”. Você já deve ter dito ou ouvido essa frase alguma vez. Nas altas rodas, não se fala sobre aumento da gasolina ou do preço da carne no supermercado. Ninguém costuma se preocupar com o valor do salário mínimo ou da cesta básica. A constatação de quanto o dinheiro está valendo de verdade se dá na prateleira da loja de vinhos ou na hora de emitir o bilhete aéreo da próxima viagem internacional.
De fato. O IPCA é o indicador oficial da inflação no país e avalia os preços de um conjunto de produtos e serviços que compõe o padrão de consumo de famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos, como transporte público, alimentos e até conserto de celulares. Em 2026, segundo o IBGE, o IPCA acumula 2,60% de alta até abril. Mas, se o universo do IPCA se limita a famílias de até 40 salários, é provável que muitos dos custos habituais de quem ganha mais de R$ 64.840 atualmente não sejam refletidos no índice, o que justifica a sensação comum ao público de alta renda de que a inflação vivida é maior que a oficial.
As razões para tanto são diversas, mas se lastreiam no padrão elevado de consumo. Esse público acessa produtos e serviços sofisticados. A moradia inclui imóveis nos melhores bairros e muitas vezes no exterior; o transporte envolve viagens internacionais em primeira classe ou em aeronaves próprias; a educação contempla escolas e cursos diferenciados e que custam muito dinheiro. Enfim, o custo de vida é impactado por variáveis de luxo que vão muito além do preço da cebola ou do botijão de gás.
O mercado identificou essa lacuna e tenta apontar qual seria a inflação do rico no Brasil. Não é uma tarefa fácil, pois nesse cálculo há quem prefira Dom Pérignon a Cristal ou Patek Philippe a Rolex... mas há algumas tentativas para que se tenha em mente o que, de fato, pesa mais no custo de vida para patrimônios mais elevados.
O IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – busca identificar a inflação para faixas de renda mais específicas que as do IPCA oficial, incluindo uma de renda domiciliar maior que R$ 22.998,22, que denomina “renda alta”. Em seu último relatório, aponta que a inflação dessa faixa foi bem superior à dos grupos de rendas menores. Enquanto o IPCA dos últimos 12 meses (ref. abril/26) foi de 4,39%, a inflação da alta renda seria de 4,95% e a da renda muito baixa de 3,83%:
Áreas de Private Banking e Wealth Management têm buscado identificar esses pormenores. O Itaú, por exemplo, criou um índice que chama de IPC Private. Uma das ideias foi adequar os padrões e pesos do IPCA convencional para o público de maior patrimônio. Como exemplo, enquanto transporte e alimentação pesam juntos 42% do IPCA, o banco defende que estes custos são menores para o público Private, enquanto habitação, despesas pessoais e educação pesam mais que nas demais faixas de renda:
Outro ponto interessante é o quanto o custo de famílias de alta renda é impactado pela variação do dólar. Para o banco, “pelo menos 52% da cesta de consumo do IPC Private é sensível ao câmbio, enquanto no índice oficial, apenas cerca de 31%”. Exemplos típicos são a exposição maior dessas famílias a produtos importados de alto custo, eletrônicos e viagens internacionais, enfim, produtos e serviços que ficam mais caros sempre que o dólar se aprecia. Mesmo que o real se valorize, o preço não volta automaticamente para os patamares iniciais.
Os economistas chamam isso de pass-through assimétrico do câmbio: o dólar que sobe repassa tudo ao consumidor, mas quando cai não devolve quase nada, como uma “catraca”, que gira fácil para um lado, mas não para o outro. Para famílias com alto consumo em dólar, isso significa que proteção cambial na carteira não é opcional, mas estrutural.
No exterior, também há a tentativa de se estabelecer um índice de inflação mais condizente com altas rendas, inclusive a de super-ricos. A Forbes tem seu próprio índice, o CLEWI (Cost of Living Extremely Well Index), que tenta medir a variação de preços para o público que investe em cavalos puro-sangue, iates e jatos particulares. Não que a inflação para quem está no topo da pirâmide seja impeditiva para qualquer aquisição, claro, mas a publicação indica que a inflação deste seleto grupo supera consideravelmente a média.
Se não há um consenso sobre o melhor método para medir a inflação real do público de maior renda, buscar elementos pessoais que identifiquem o nível de inflação enfrentada por cada família é fundamental, pois a preservação do patrimônio depende não apenas da rentabilidade nominal de investimentos, mas da capacidade dos ativos de gerar ganhos superiores à elevação do custo de vida.
Com base neste diagnóstico pessoal, é possível ir a mercado para buscar estratégias que amenizem o peso inflacionário no patrimônio familiar. A diversificação é sempre óbvia e a proteção contra a inflação é tradicionalmente instrumentalizada em carteiras de investimento geridas por profissionais sérios e comprometidos com o longo prazo.
Ativos financeiros atrelados ao IPCA, ainda que este índice não reflita exatamente o custo de vida de quem está no topo, podem servir como instrumento relevante de acúmulo de capital no longo prazo, especialmente no momento em que títulos públicos de prazos maiores pagam juros reais acima de 7% ao ano, além da inflação oficial.
Investimentos no exterior também têm sido uma solução cada vez mais difundida, em especial por taxas de retorno acima de 5% ao ano, em dólar, mesmo para títulos conservadores como os do tesouro americano.
Para se ter ideia de acúmulo ao longo do tempo, veja a simulação do retorno de um capital de R$ 1.000 por 20 anos (isso não é uma recomendação de investimento):
Conforme os dados apresentados, em uma janela de observação de 20 anos, R$ 1.000 aportados segundo diferentes estratégias teriam retornos maiores em títulos atrelados à inflação e ao dólar, considerando-se os prêmios vigentes no mercado atual.
No final, lembre-se: mais que vencer o IPCA, você deve vencer sua inflação – aquela que aparece na fatura do cartão, no cardápio do restaurante que mais gosta e na hora de conhecer um novo destino de férias. O patrimônio bem protegido não é o que rende mais, mas o que preserva seu estilo de vida acima de qualquer estatística oficial.
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