A cena é frequente. Você abre o aplicativo de seu banco e encontra uma prateleira organizada para investir seu dinheiro: caixinhas, produtos em destaque, aplicações automáticas e carteiras sugeridas. Tudo parece personalizado para aquilo que você precisa. Mas por que essas opções estão ali e a quem elas interessam, afinal?
O mercado financeiro costuma ser imaginado como um ambiente em que boas escolhas prosperam e decisões ruins dão prejuízo, numa espécie de meritocracia do capital. Porém, deve-se ter em mente que ele – o sistema – é estruturado para que alguém – não necessariamente você – ganhe com seu funcionamento.
Bancos, gestoras, plataformas e distribuidores de produtos financeiros não fazem filantropia. São empresas privadas que possuem metas, margens e produtos à venda. Se essa é a natureza do negócio, então compreenda o contexto em que seu patrimônio é inserido.
Nem sempre isso está claro, mas cada produto financeiro carrega uma lógica de remuneração para quem o comercializa. Comissões, taxas de administração e corretagem, por exemplo, tornam alguns investimentos mais ou menos baratos. A rentabilidade é reduzida por esses custos embutidos, que serão pagos muitas vezes antecipadamente.
Do outro lado, você navega nesse ambiente acreditando estar apenas escolhendo entre as alternativas que melhor se adequam à sua necessidade. No entanto, a escolha nunca começa do zero, mas a partir do que foi colocado à sua frente, numa vitrine eletrônica. O algoritmo apresenta os produtos “em destaque” e recomendações que limitam o seu horizonte de escolha.
Você escolhe — ou escolhem por você?
A inserção de gatilhos mentais, suporte de mensagens instantâneas com robôs de conversas e uso de inteligência artificial são artifícios comuns para influenciar a escolha. Juntam-se a eles outros fatores coletados na base de dados do cliente. O resultado são informações enviesadas, que direcionam sua decisão, nem sempre alinhada ao seu interesse.
Esse desencontro não aparece em gráficos nem em relatórios de performance. Ele está na forma como as decisões são feitas ao longo do caminho. Por isso, antes de escolher “o melhor investimento”, é melhor questionar “por que este investimento me foi oferecido?”
A Comissão de Valores Mobiliários editou normas a favor de quem investe. Plataformas, corretoras e fundos de investimento são obrigados a explicitar a estrutura de custos de seus produtos, de modo a deixar claro que é você que paga por eles. Assessores de investimento também são obrigados a explicar que recebem incentivos financeiros por indicar produtos. Mas a regulação ainda não resolveu o conflito de interesse por trás dos incentivos financeiros que acompanham muitas ofertas.
A lição que fica, ao fim, é que investir não é apenas escolher onde colocar o dinheiro, mas avaliar como e por que aquela oferta de um produto específico chegou até você e quem mais ganha com ele. Não é duvidar da idoneidade de quem lhe oferece, mas compreender que há uma lógica de distribuição que você pode conhecer melhor.
O mercado não é seu inimigo, mas também não é seu amigo. É um negócio que, como muitos outros, funciona melhor para quem o domina, compreende suas nuances e mantém a ingenuidade do lado de fora.
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