Você abre o aplicativo da plataforma de investimentos da sua corretora e vê que sua carteira rendeu bem e talvez mais do que você esperava, mas os resultados estão abaixo do CDI. E aquilo que estava bom já parece ruim.
Mas o que é bom quando se investe?
Pessoas normalmente se baseiam em referências para tomar suas decisões. Cores, tamanhos e cheiros costumam ser o ponto de partida para as escolhas do dia a dia. Se alguém, então, lhe propusesse um empréstimo de dinheiro em troca de mais dinheiro, você precisaria avaliar se o que lhe propusesse é bom.
Essa avaliação é pessoal em boa parte das vezes, conforme as experiências moldadas pelo que se viveu ou ouviu. É algo tão personalíssimo que ninguém discute (ou não deveria) quando gostos e preferências não são coincidentes. Pessoas são diferentes e suas escolhas também. Nada de novo.
Voltando ao exemplo do dinheiro. Se alguém propõe aquele empréstimo para pagar uma quantidade de juros em troca e outro alguém aceita, estão lançadas as bases de um contrato de mútuo fundado num ajuste de vontades: preço, prazo e retorno. Todos ficam satisfeitos e a vida segue seu curso... até que uma das partes, no caso, o credor, descobre que a outra (o devedor) aceitaria pagar mais para ter acesso ao mesmo dinheiro. Pronto: aquilo que antes estava bom fica um pouco ruim. O investimento era satisfatório, mas a informação posterior contaminou a ideia de um retorno relativo e, de quebra, a referência que o credor possuía até então sobre o negócio.
Esse sentimento é visto com frequência no mercado: investidores fervorosos no início esfriam com o passar do tempo. Aquele desejado 1% ao mês sem esforço começa a parecer nada quando se avalia que o CDI do período foi de 1,10%.
O que mudou? O objetivo foi alcançado inicialmente, mas se torna relativamente ruim quando comparado a um benchmark de mercado, mas não necessariamente o que o investidor considerava como sua própria referência, ainda que não formalizada. Em parte, poder-se-ia pensar em simples ganância ou dificuldade de definir o que é suficiente no jogo do dinheiro.
Mas o ponto central é anterior a esse: como estabelecer um benchmark próprio e independente das preferências adotadas pelo mercado, ainda que se tenha os seus parâmetros técnicos como uma lógica a perseguir? Quer dizer, se um benchmark de mercado é necessário, como subordiná-lo ao próprio conceito do que é bom quando se investe dinheiro?
A lógica fria do benchmark
Para o sujeito racional, com análise puramente matemática, parece simples. O benchmark a ser seguido é o mais rentável. Seus objetivos se baseiam nele e nada mais. Cria-se uma métrica segundo a qual seus investimentos seguem tal índice de referência e, desde que atingido, dá-se a tarefa por cumprida. Não se leva em conta variáveis subjetivas ou comportamentais. Por exemplo: atingiu o CDI? Se sim, está bom. Caso contrário, está ruim.
Porém, a adoção fria de um benchmark, sem uma reflexão contextualizada, pode criar uma âncora psicológica: parte-se do pressuposto que ele é o marco zero e ponto central de avaliação para saber se os resultados estão bons. Contudo, há décadas, estudiosos de finanças comportamentais apontam os perigos da ancoragem na tomada de decisões, uma metodologia comum a mercados de consumo, mas que induz pessoas a erros ou minimamente ofuscam a capacidade de avaliação, tal como explicou Daniel Kahneman em seu livro “Rápido e devagar. Duas formas de pensar” (Rio: Editora Objetiva, 2012, pp. 152 e ss).
Nessa lógica, até que ponto um sujeito que se baseia em sua própria experiência moldada por elementos subjetivos e não mercadológicos estaria disposto a sacrificar seus próprios parâmetros daquilo que considera bom para adotar, ao contrário, medidas que eventualmente falem pouco para ele mesmo? Por isso, ao passo que um benchmark como o CDI pode ser o alvo típico para quem fala a língua do mercado, para uma pessoa comum talvez ele fale um pouco menos ou quase nada quando visto isoladamente.
Retorno não é tudo
Não por acaso, muitos preferem ganhar menos e dormir melhor. Seu benchmark interno reflete menor tolerância a riscos, ainda que sacrificados os retornos. Contraditório para quem investe? Talvez, mas para muitas pessoas é a melhor escolha a fazer, ainda que sob o prisma técnico alguém indicasse o caminho contrário para atingir determinada referência padrão de mercado.
Visto de outra forma, referências de mercado podem ser sazonais ou específicas para um determinado perfil de investidor, nem sempre fazendo sentido para todos os que investem. Há inúmeros benchmarks, como o CDI para a renda fixa, o Índice Bovespa para ações no Brasil, o IMA-B para juros longos atrelados à inflação, e tantos outros.
Em tempos de Selic alta, o investidor da renda fixa normalmente avaliará sua performance com o CDI. Mas, numa balança de risco e retorno, é plausível alguém optar por receber menos que o CDI numa renda fixa mais segura que outra que pague acima deste índice, porém com riscos maiores. Do mesmo modo, se investe em ações, terá como base a média das ações negociadas na bolsa (Ibovespa) para estabelecer o nível de acerto de suas operações. Mas ninguém é proibido de comprar ações de uma grande empresa que eventualmente esteja abaixo do Ibov por razões pontuais.
Então, antes de se pensar em referência de mercado, seja CDI ou qualquer outro, é pertinente estabelecer primeiramente as próprias bases conceituais para avaliar se um investimento é bom ou ruim. Ou seja, você pode considerar como benchmark a sua própria satisfação de investir em paralelo com as referências de mercado, lógica e tecnicamente importantes, mas que não se sobrepõem à sua própria experiência individual.
Seus objetivos iniciais foram atingidos quando investiu? O seu perfil foi compreendido e acolhido de modo que sua paz de espírito ficou inabalada durante o período em que o dinheiro esteve fora de suas mãos? Os profissionais que lhe servem transmitem segurança para que você pense em outra coisa além do dinheiro? Em outras palavras, se você esteve satisfeito com os resultados amplamente considerados, muitas vezes além do dinheiro, seu benchmark interno pode ter sido atingido.
O resto pode ser um extra que talvez pese mais nos relatórios técnicos do que naquilo que você espera do seu próprio dinheiro. No fim, o melhor benchmark será aquele que melhor equilibra o retorno com suas próprias percepções ao investir. Vale avaliá-lo antes de todos os outros.