Será que o Espirito Santo realmente quer ter protagonismo na agenda da inovação? A pergunta tem razão de ser. Já abordamos o tema em artigos anteriores, voltamos a ele agora. Nota-se no mercado a sensação de que paramos no tempo, num momento em que agilidade é crucial.
A partir de 2017, a inovação entrou de forma mais intensa e consistente na agenda do desenvolvimento do Estado. Fizemos na época uma largada que empolgou. Na sequência, em 2018, criamos a Mobilização Capixaba pela Inovação – MCI, reunindo entidades do setor produtivo, universidades, empresas privadas, instituições e governo.
Estabelecemos então uma modelagem interessante que previa uma governança para o ecossistema. Construímos um instrumento de funding inédito no país, o Funcitec/MCI, e fomos conhecer diversas iniciativas de sucesso dentro e fora do Brasil. Parecia promissor. Com o passar dos anos, contudo, esse quadro não evoluiu como em outras regiões do país.
No ranking de competitividade dos Estados, o Espírito Santo permanece em 10º lugar geral, e no quesito “Empreendimentos inovadores” estamos em 23º, na lanterninha. Quando criamos a MCI, estabelecemos na época 3 grandes metas até 2030: ficar entre os cinco estados mais inovadores do Brasil, alcançar o número de mil startups em atividade e ter 20% de empresas baseadas em tecnologia e inovação entre as 200 maiores do Estado. Com esse andar da carruagem, dificilmente bateremos as metas.
Parece que nos últimos anos a energia foi se dissipando, a governança proposta, se perdendo, e o instrumento de funding – até então inédito e promissor – não mostrou resultado relevante. Importante ressaltar que o Funcitec disponibilizou no ano passado R$ 109 milhões, a meu ver, muito mal aplicados. A conexão com a academia é frágil. Enfim, paramos no tempo.
É evidente que temos boas iniciativas em marcha, cases de sucesso, mas com certeza muito aquém do que ambicionamos quando lançamos o MANIFESTO PELA INOVAÇÃO. Por isso, volto mais uma vez a esse debate.
Uma das referências nessa discussão, o empresário Francisco Carvalho, presidente do conselho da Timenow, costuma dizer que a inovação é um processo de transformação cultural, e que, como envolve cultura, demanda um tempo de maturação. E as empresas precisariam investir mais, sem esperar do governo. Num ponto todos parecem concordar: falta uma organização estruturada para unir esforços de empresas, governos, instituições, academia.
Francisco Carvalho observa certa concorrência entre iniciativas com a proliferação de hubs em empresas e instituições, na Grande Vitória e no interior, às vezes com ações em sentidos opostos, levando à dispersão de energia. Sendo um Estado pequeno, deveríamos nos mobilizar, como aconteceu em Santa Catarina com a Acate - Associação Catarinense de Tecnologia ou com o Instituto Caldeira, de Porto Alegre. Além disso, temos o desafio de investir mais na capacitação de profissionais, na área de desenvolvedores ou de marketing. Não há profissionais capacitados em quantidade suficiente atualmente.
De todo modo, o vento continua soprando a favor dessa agenda no Espírito Santo, mas precisamos ajustar melhor as velas. Se o Estado realmente acredita na inovação como um poderoso drive de um novo ciclo econômico, os atores do ecossistema precisam se reencontrar e, com base em boas referências globais, repactuar essa agenda.
O advento da NIB – Nova Indústria Brasil, a política industrial do país lançada em janeiro, traz no seu cerne a inovação como meio para elevar a competitividade e a inserção da indústria brasileira no mundo. As linhas de crédito para a inovação, como Finep, têm se esgotado com velocidade, dada a disposição das empresas de investir nessa agenda. O Espírito Santo precisa se inserir nesse movimento.
Estabelecer novas metas e um plano factível para alcançá-las, uma governança pragmática e resolutiva, reforçar o funding entregando a sua gestão a quem faz bem feito no país, retomar o discurso priorizando o tema, e praticando essa escolha: esses são alguns caminhos para voltarmos ao trilho da inovação.
A agenda precisa de uma liderança que consiga unir o poder público, as empresas, a academia e os agentes financeiros em torno dessa pauta. Devemos trazer para o nosso território atores que já dão certo em suas responsabilidades, como é o caso da Embrapii, que há anos sugerimos que fosse o operador do Funcitec, uma fantástica fonte de recursos, mas muito mal operada, ou ainda a Fundação Certi, Instituto Senai de Inovação, Fundação Dom Cabral, Porto Digital, entre outros.
Iniciativas dispersas e que não se conectam não vão nos levar adiante, disputas por protagonismo, muito menos.
A inovação pode transformar uma sociedade, gerando oportunidades para todos que pensam de forma aberta soluções para problemas de todos os tipos. Inovação é inclusiva, transformadora. Inovação gera valor, propicia melhores salários, puxa a evolução da educação, conecta o capixaba ao mundo.
Queremos mesmo ser um Estado inovador? Se a resposta for sim, precisamos de nos movimentar, não se enganem. Da forma como estamos tratando essa agenda, estamos perdendo espaço.