Acompanhei em São Paulo, na semana passada, o 9º Congresso Brasileiro de Inovação, da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Uma oportunidade interessante de ouvir alguns dos principais empresários e CEOs do país sobre os nossos desafios para o futuro.
Um dos painéis mais interessantes foi mediado pelo empresário Horácio Piva, presidente do Conselho de Administração da Klabin. Ele acaba de voltar do Egito e falou sobre o clima de confiança no futuro daquele país, com o desenvolvimento da agricultura no deserto e a construção de uma estrada de 10 mil quilômetros até a África do Sul, investimentos fortemente amparados em tecnologia.
“Fazer pouco tem um custo muito alto”, observou Piva, confessando uma “inveja saudável” do ambiente de progresso lá. Já perdemos tempo demais, a hora é de correr atrás. O Brasil lida como poucos com ativos importantes como diversidade e criatividade, mas não aproveitamos como poderíamos.
Academia, governo, empresas privadas, todos nós precisamos ter essa consciência de que fazer pouco tem um custo elevado: o risco é ficarmos para trás de forma irremediável na corrida pelo desenvolvimento brasileiro.
A CEO da Microsoft Brasil, Tânia Cosentino, observou que tivemos 60 anos para nos adaptar à terceira revolução industrial. Já não temos esse tempo na quarta revolução, a indústria 4.0. “Temos 10 anos para ensinar inteligência artificial. Se não fizemos essa transição, enfrentaremos um drama na economia brasileira. Precisamos trabalhar isso nas escolas técnicas, e o Sistema S tem sido um grande parceiro. Esses pontos são urgentes”, ressaltou Cosentino.
Acompanhei atentamente os debates e fiquei pensando nos nossos desafios estaduais. No recente ranking de competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), subimos 4 posições no quesito inovação, chegando ao 9º lugar. Porém, em recente reportagem da Folha de S. Paulo sobre os “Vales do Silício” brasileiros, ficamos literalmente fora do mapa, entre 21 cidades em diversos Estados que reúnem comunidades consideradas como os mais relevantes polos de inovação no país.
Talvez porque nos falte “cacarejar” os nossos potenciais, como já observei em outras ocasiões neste espaço. Mas também penso que nos falta conteúdo, conhecimento, conexões nacionais e internacionais e vontade de fato de priorizar o tema. Não é problema não ter conhecimento ou conexões, problema é não buscar apoio para suplantar os gaps existentes e não perceber que não podemos mais esperar.
No Brasil, ganharam destaque na reportagem alguns polos tecnológicos como o Porto Digital, no Recife, a Ilha do Silício, em Florianópolis, e a Rapadura Valley, em Fortaleza.
E o Espírito Santo? Temos iniciativas únicas no país, como a Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), uma ação conjunta dos atores locais para tornar o ecossistema de inovação cada vez mais forte, unindo o setor produtivo (grandes empresas como Arcelor, Vale, Suzano, Petrobras, EDP e a Findes), a academia (Ufes, Ifes e UVV) e o governo estadual.
A MCI também conta com um fundo com recursos específicos para inovação/apoio a startups, o Funcitec (Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia), e tem metas ousadas, como ter pelo menos 20% de empresas baseadas em tecnologia e inovação entre as 200 maiores empresas do Estado, num período de 10 anos (contados a partir de 2019, já se passaram 3). Esse fundo é “de risco puro”, é subvenção para investimento, uma iniciativa praticamente única no Brasil!
A resolução que regulamenta o Funcitec é de agosto de 2018. Poderíamos ter um pouco mais de agilidade, capacidade metodológica e potência na aplicação e divulgação desse fundo. Uma parceria estratégica que vem sendo construída há algum tempo e que precisa se consolidar é com a Embrapii, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, organização com contrato de gestão com os Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia.
Criada em 2013, a Embrapii faz a ponte entre o setor produtivo e os centros de conhecimento, um modelo inspirado na Sociedade Fraunhofer, da Alemanha, maior organização de pesquisa aplicada da Europa. No ano passado, a Embrapii apoiou quase 300 empresas em todo o país.
A reportagem da Folha mostrou a importância da mobilização de todos os atores para deslanchar ecossistemas de inovação robustos. “Eu odeio a frase: ‘Quando o governo não atrapalha, ele já ajuda bastante’. Isso está completamente errado”, observou a secretária de Inovação de Curitiba, Cris Alessi. De fato, não é somente não atrapalhar, é induzir, agir para que aconteça, liderar!
A Prefeitura de Curitiba criou, em 2017, o chamado Vale do Pinhão, projeto com o objetivo de colocar Curitiba novamente no mapa da inovação. “Só o poder público tem o poder de legislar. Se nós não tivéssemos um programa de incentivos fiscais, Curitiba não teria metade das startups importantes que tem hoje”, argumenta a secretária. O poder público tem também a capacidade de pautar a sociedade, e isso tem uma potência incrível.
No Espírito Santo, a MCI tem a meta de estimular novos negócios e novos empregos, chegando ao número de mil startups até 2029, inserindo o Estado entre os 5 mais inovadores do país. É possível, mas precisamos fazer acontecer.
A resolução do Funcitec/MCI está prestes a completar 4 anos. Evoluímos? Sim, mas volto à frase do Piva: “Fazer pouco tem um custo muito alto”. Podemos ser mais ambiciosos. No mundo real, não basta uma boa ideia: é a execução que mostra se o projeto vai ou não dar certo.