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Industrialização

Nova Indústria Brasil: como pôr em prática o que a melhor teoria econômica predita?

Inspirado na abordagem de Mazzucato, mas sem qualquer detalhamento, o programa promete injetar R$ 300 bi na indústria, focando em quatro “missões”

Públicado em 

06 fev 2024 às 01:40
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Há três anos, após um ano de pandemia do coronavírus, já acenávamos para uma saída sustentável do país num então futuro cenário pós-pandêmico. Antes dela o mundo já vinha numa desaceleração industrial em escala global, com uma imensa e recém-descortinada dependência manufatureira da China, um cenário que se acelerou abruptamente em 2020.
O Brasil chegou a 2019 com uma atividade industrial pífia, a ponto de a relação “produção industrial/PIB” ser praticamente a mesma da década de 30, época da embrionária revolução industrial tardia brasileira.
Com o colapso produtivo imediato ocorrido com a pandemia, que mostrou as diversas fragilidades das cadeias de produção e logística, fábricas fechando as portas, marcas reduzindo o espectro de produtos, especializando-se em determinados nichos (citamos à época a Ford, que encerrou a produção de veículos de passeio, focando seus recursos a utilitários e off-roads) e, claro, o acachapante crescimento dos seres-humanos inúteis (Yuval Harari), ou meramente chamados de desalentados, governos precisariam encontrar alguma saída, algum caminho para a volta do crescimento econômico.
Pincelamos, à época, o restauro da indústria local como uma saída. Alguns especialistas até sugeriam, com algum grau de equívoco hoje visto com mais clareza, uma “desglobalização”.
Seguindo a linha da reindustrialização local, ano passado Dani Rodrik nos brindou com um ensaio denominado On Productivsm (março/2023), onde, sem fechar os olhos para o mundo globalizado, o professor sugere um cenário futuro cujo foco industrial deve atender a duas frentes: de um lado a disseminação da produção local de acordo com as vantagens comparativas de cada região ou país e, de outro, que esse novo modelo produtivo incentive a geração de bons empregos.
Para tanto, busca transcender à polarização política, encontrando pontos de convergência entre o welfare-state keynesiano e o neoliberalismo, com incentivos ao estágio produtivo de negócios locais “labor-friendly”.
Na prática essa tem sido a tendência no mundo, que já deu início a uma nova corrida industrial. Os Estados Unidos seguem com investimentos na ordem de US$ 2 trilhões à “estratégia industrial americana moderna”, numa clara competição com o desenvolvimento do capitalismo de estado chinês. A União Europeia, não querendo ficar para trás, também anuncia investimentos na ordem de € 2 trilhões.
Essa nova era da industrialização tem sido direcionada. Como diz Mariana Mazzucato (Valor, 22/01/2024), a ideia é trazer uma abordagem que garanta a sustentabilidade do planeta e que assegure à população desde seu bem-estar até sua utilidade frente às novas tecnologias. É o que a autora chama de “abordagem orientada por missões”. Num pequeno desalinho com Rodrik, Mazzucato sugere a formação de uma economia sustentável pré-distributiva, enquanto aquele foca todo incentivo ao setor produtivo, como forma de garantir a equalização das desigualdades.
E onde está o Brasil nessa corrida?
No último dia 22 de janeiro o governo lançou sua nova política industrial, a Nova Indústria Brasil. Inspirado na abordagem de Mazzucato, mas sem qualquer detalhamento, o programa promete injetar R$ 300 bi na indústria, focando em quatro “missões”: inovação (“indústria inovadora”), exportação (“indústria exportadora”), produtividade (“indústria competitiva”) e descarbonização (“indústria sustentável).
De início, o desafio é tentar pôr em prática o que a melhor teoria econômica predita. E os entraves são muitos. De cara, as contas públicas. O país, que veio de um superávit de R$ 54,1 bi em 2022, fechou 2023 com um rombo de R$ 230,5 bi, o 2º maior da história, só perdendo para o fatídico ano pandêmico.
Nova Indústria Brasil
Nova Indústria Brasil Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Não se podem menosprezar os aspectos históricos que fazem o investimento pátrio ser de alto risco. Além da burocracia estatal, insegurança jurídica e alta carga tributária, a falta de capacitação dos trabalhadores, notadamente num mundo onde a inteligência artificial tende a predominar, torna difícil conciliar o aumento de produtividade com a geração de empregos, quem dirá com empregos dignos (os “good jobs” de Rodrik).
Enfim, o desenvolvimento industrial local, particionado em missões, tem uma excelente mentora intelectual (Mazzucato), mas quando se trata de Brasil, como disse certa vez Mário Covas, “na prática a teoria é outra”.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e estudante de Economia. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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