O Brasil finalmente dá sinais de que acordou de um longo período de políticas públicas equivocadas, que levaram o país a perder terreno no mercado global, prejudicando especialmente a sua indústria. Somos um dos raros casos de países que tiveram uma acelerada desindustrialização, sem antes ter chegado a um nível razoável de maturidade fabril. Esperamos, contudo, estar virando essa página.
Nos últimos 25 anos, saímos de uma participação de 2,69% na produção mundial da indústria de transformação para somente 1,28%, ou seja, caímos pela metade! Um total retrocesso.
Na semana passada, contudo, o governo federal, por meio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, lançou as bases do plano de reindustrialização do país, que a atual gestão prefere chamar de “neoindustralização”: um sopro de esperança para todos nós, independentemente da nomenclatura.
Em sua participação em evento da Fiesp, na quinta-feira passada, 25 de maio, Dia da Indústria, o presidente do BNDES, Aloísio Mercadante, falou sobre o plano e fez a pergunta crucial: afinal, o Brasil quer ter indústria? “Ou abrimos essa discussão com força e assumimos compromissos ou vamos perder essa batalha. A nova geração parece não ter a visão e o compromisso que a minha geração sempre teve em relação à indústria”, disse Mercadante, escancarando o X da questão.
Mercadante lembrou que há quase 100 anos, logo após o crash de 1929, o governo Getúlio Vargas implantou no país a nossa primeira política industrial e lançou as bases da indústria nacional, com a criação da CSN, Vale, Petrobras e BNDES.
Nos anos 50, o governo Juscelino Kubitschek lançou um plano de metas orientado para alavancar a indústria brasileira, especialmente a indústria automotiva, a indústria naval e a indústria pesada de bens de capital.
No regime militar, nos anos 70, o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, ou II PND, era fortemente industrializante, alavancando a indústria química, a indústria pesada e projetos estruturantes da construção civil.
Em algum momento da nossa história, porém, perdemos o bonde e abandonamos essa visão estratégica. Como consequência, perdemos competitividade, perdemos protagonismo no mercado global, a indústria encolheu, a economia estagnou, o desemprego aumentou e o país empobreceu. Éramos a 8ª economia do mundo, hoje somos a 13ª.
Agora, o governo demonstra estar convencido de que realmente precisamos voltar a ter uma estratégia nacional, com foco em ciência, tecnologia e inovação: “Precisamos voltar a ter um plano industrializante indutor do desenvolvimento”, disse o presidente do BNDES para um público de lideranças industriais.
A CNI (Confederação Nacional da Indústria), por meio de suas diretorias e ouvindo os industriais do Brasil, contribuiu com o debate ao elaborar uma proposta, o Plano de Retomada da Indústria – Uma nova estratégia focada em descarbonização, inovação, inclusão social e crescimento sustentável.
As políticas industriais contemporâneas, como as que a CNI defende e o governo parece abraçar, contemplam algumas megatendências globais, entre elas: a aceleração da transformação digital, genômica e nano-tecnológica; a crise climática e a transição energética, com o consequente imperativo de descarbonização; e as demandas da sociedade frente à perda de empregos e ao aumento da desigualdade de renda.
Temos bons exemplos a seguir, mencionados inclusive pelo presidente do BNDES, no discurso para os industriais: a União Europeia lançou em fevereiro deste ano o “Green Deal Industrial Plan”, ou Plano Industrial do Pacto Ecológico, um programa de 662 bilhões de euros.
Os Estados Unidos lançaram diversos pacotes como a “Estratégia Nacional para o Desenvolvimento da Manufatura” e o “Chip and Science Act”, somando mais de US$ 700 bilhões. China, Coreia do Sul, Japão, Alemanha e tantos outros países que tanto admiramos seguem caminho semelhante.
Importante ficar claro que esses valores são sim subsídios, a exemplo do que o Brasil faz com o agro, mas deixou de fazer com a indústria, e agora parece recuperar terreno. Precisamos acordar para o uso das ferramentas adequadas para enfrentar a concorrência global. Precisamos de equidade competitiva, para ter as mesmas armas para que a nossa indústria de transformação também se desenvolva e ganhe mercado no comércio mundial.
Subsídio não é jaboticaba, ressaltou o presidente do BNDES, no encontro com industriais em São Paulo: é o que os outros países têm feito. O que precisamos no modelo contemporâneo é de transparência, governança, regras claras e monitoramento de metas.
No Brasil, as reações ao novo pacote têm sido positivas. As medidas incluem investimento público e privado em educação tecnológica, pesquisa em ciência e tecnologia e digitalização do parque industrial, reconstrução e expansão de ferrovias e portos e linhas de crédito do BNDES para a exportação.
Parece que realmente acordamos para a importância de valorizar o setor que representa o motor da atividade econômica como um todo: é a indústria que paga os maiores salários, que mais investe em pesquisa e desenvolvimento e que estimula, como demandante, o avanço tecnológico, o marketing, o design e toda a cadeia produtiva. Sem a indústria, incluindo a produção de fertilizantes e máquinas agrícolas, o agro brasileiro não seria o fenômeno que é atualmente, um motivo de orgulho no cenário internacional.
Temos agora a missão de mobilizar todos os atores para que essa reindustrialização realmente deslanche. Os esforços devem unir o Ministério do Desenvolvimento, o BNDES, o Congresso Nacional, CNI, o Movimento Brasil Competitivo, as Federações das Indústrias dos Estados e demais forças da sociedade, para que todos possam remar na mesma direção.
Passou da hora de entrarmos nessa batalha global devidamente preparados. Esperamos que o Brasil realmente tenha acordado de um sono de quase 40 anos, e volte de fato a impulsionar a sua indústria.