Diríamos que hoje já há um certo consenso entre especialistas que se encontram no front das discussões da temática da industrialização de que não haveria como imaginarmos um retorno aos níveis anteriores de ocupação de mão de obra. Fato que já se configuraria em uma tendência que, no conjunto, se mostraria inevitável. Isso posto, “reindustrializar”, portanto, não seria a estratégia mais adequada para o momento. Até porque poderia soar como repetição, mesmo que com nuances de indicativos de avanços do que já vem sendo feito.
Obviamente, estamos falando principalmente em referência a situações de países que como Brasil se encontram em estágios mais defasados no movimento evolutivo da indústria em geral. Nos países mais avançados, já não se trabalha com cenários que contam com o setor industrial na geração de novos postos de trabalho em proporções maiores que os demais setores. Automação e inovações suportadas por IA – Inteligência Artificial e novas tecnologias digitais incorporadas na indústria 4.0 se firmam como tendências inevitáveis.
Quando utilizei a expressão desindustrialização relativa, recentemente postada neste espaço, me referia exatamente a esse movimento que se evidencia com tendência e não como algo circunstancial ou reflexo de uma inflexão cíclica. Em outras palavras, estamos diante de uma nova revolução industrial, que diferentemente do que ocorreu no passado, vem de forma imbricada, acoplada uma bem mais ampla revolução que acontece nos demais setores da economia, na sociedade num sentido global, porque não também no âmbito civilizatório.
Do ponto de vista de Brasil, esse cenário pode ser visto tanto como ameaça como fonte de oportunidades. Se o vemos com um olhar de oportunidades, sem dúvida, temos que ter bem claro qual indústria que queremos e poderemos ter. Certamente não será aquela indústria “reindustrializada” nos moldes do passado, que foi majoritariamente suportada por “muletas” de incentivos e afagos dos governos, como se fosse uma repetição do passado e que já se sabe não deu certo e que explica em grande medida o nosso atraso relativo.
Curiosamente dentro do próprio governo vemos esse dilema colocado quando de um lado o próprio presidente Lula no afã de repetir o passado anuncia a intenção de produzir um carro popular na faixa cujo preço se aproxime dos R$ 50 mil. Enquanto isso, de outro lado, o vice-presidente, que também é ministro do Desenvolvimento, diz que o Brasil precisa avançar em direção a uma nova indústria que ele mesmo denominou de “neoindústria” ou “neoindustrialização”.
Mas o que seria essa “neoindustrialização? Seria um novo processo de industrialização, em outras palavras numa perspectiva de uma nova indústria, pautada em dimensões como transição energética – nova matriz energética -, que necessariamente venha atrelada à sustentabilidade, num sentido mais amplo, e à necessária absorção e incorporação de novas tecnologias.
Em suma, a política industrial, se é que existe ou venha a existir, tem que ser repensada num olhar do tempo futuro e não do passado.