O consumo das famílias, que ajudou a economia no primeiro mandato de Lula e também um pouco no segundo, passa a ser hoje um dos seus grandes entraves. É importante ressaltar que estamos falando aqui do maior componente do PIB, cuja participação, numa média histórica, tem se fixado no entorno de 63%.
É fácil, assim, entendermos a sua importância enquanto indicador do “humor” e desempenho da economia. Portanto, qualquer evento ou movimento que altere a capacidade de consumo das unidades familiares automaticamente rebate no desempenho geral da economia. E é o que está acontecendo, numa sinalização negativa, com o crescimento mais acelerado do endividamento delas.
Recorrer ao crédito para ter acesso a bens e serviços ou mesmo suprir-se de necessidades urgentes e eventuais é fato normal e comum em qualquer economia. O problema é quando, por algum motivo ou situação adversa, esse comum ultrapassa certos limites e passa a comprometer o próprio desempenho da economia. E é o que está acontecendo no momento no nosso Brasil.
O sinal de alerta foi dado em 2022 com a curva de endividamento chegando ao seu ponto máximo. Tendência que se arrefeceu um pouco mais recentemente por conta de alguns fatores, entre os quais o recuo da inflação e a resiliência do emprego em manter-se crescendo. Mas, mesmo assim, não há como negar seus efeitos negativos no desempenho do varejo e serviços em 2023.
A questão ou problema nem deriva tanto do grau de endividamento em si, que aliás em comparativos com outros países se mostra até comedido, mas sim no custo do seu carregamento no tempo. Nenhum outro país carrega uma taxa de juros tão elevada quanto a nossa, que em certos casos chega a mais de 300% ao ano, no confronto de uma inflação de 6% que se estima para este ano.
Estima-se que hoje aproximadamente 78% das famílias brasileiras se encontram de alguma forma endividadas e com alto comprometimento de suas rendas. Recorrendo a dados do sistema financeiro fornecidos pelo Banco Central, vamos ver que, em média geral, o estoque da dívida das famílias já corresponde a aproximadamente 50% da massa acumulada de renda em 12 meses. Isso, mais o custo de mantê-la, acaba funcionando como freio ao consumo e consequentemente ao PIB.
A consequência mais óbvia desse cenário é o aumento da inadimplência, com também óbvios impactos sobre decisões de investidas em novas compras. Fecha-se assim o ciclo “desvirtuoso” cujos resultados já sobejamente sabemos: baixo crescimento econômico.
Segundo dados da Serasa, em março último, cerca de 43% do total de pessoas adultas no Brasil, ou seja, com mais de 18 anos, encontravam-se inadimplentes, com destaque para o Rio de Janeiro com 53%. O Espírito Santo apareceu relativamente bem, na décima nona posição, com 40%, demonstrando que sua economia também vai bem. Santa Catarina e Piauí destacaram-se, com apenas 36%.
Um grande desafio: destravar o crédito. Mas para isso é preciso destravar os juros e com ele também os investimentos.