Dados disponibilizados pelo Fundo Monetário Internacional revelam que o Brasil cresceu abaixo da economia mundial nos últimos anos. A inflação é um fenômeno global desde meados de 2020, atingindo inclusive as economias desenvolvidas. Nesses países, as taxas básicas de juros encontram-se abaixo de 5% ao ano, enquanto no Brasil ela atinge o patamar de 13,75% ao ano. Estamos falando de países relativamente mais endividados e com taxas básicas de juros menores.
Recentemente, uma matéria veiculada no Jornal Nacional, da Rede Globo, mostrou que a pandemia de Covid-19, a alta das taxas de juros e o consumo reprimido foram fatores que contribuíram para o aumento do endividamento das famílias brasileiras. Essa matéria foi publicada no portal G1, no dia 20 de janeiro de 2023. Sabemos que o consumo é uma importante fonte de crescimento da nossa economia, cuja informalidade atinge quase 40% dos ocupados.
Com base no levantamento da Confederação Nacional do Comércio, a síntese da matéria pode ser expressa no fato de que “o endividamento das famílias brasileiras bateu recorde em 2022”. Trata-se do maior percentual de famílias endividadas desde o início da série histórica, há dez anos. Endividadas estiveram quase 80% das famílias, sendo que o percentual de inadimplentes se aproximou de 30%. As perspectivas da economia foram negativamente afetadas.
Há questões globais e históricas que merecem ser discutidas, pois muitas teses buscam explicar como chegamos até o presente. Das crises de representação nas democracias liberais após a dissolução da União Soviética, no final de 1991, às emergências de extremistas de direita no século XXI, muito já foi escrito e publicado. Destaco, nesse sentido, a palestra da professora Clara Mattei, da New School for Social Research, de Nova York.
A palestra sobre como os economistas inventaram a austeridade e pavimentaram o caminho para o fascismo está disponível no canal New Economic Thinking, do Youtube, desde 12 de outubro de 2022. Em síntese, as políticas sociais são afetadas negativamente, gerando impactos adversos na coesão social e ressentimentos. Para Mattei, as políticas de austeridade buscam preservar as relações de classe no capitalismo e suas relações sociais de poder. A professora cita o fim da Grande Guerra, em 1918, como um marco dessas políticas.
Segundo Mattei, desde então, os governos têm enfrentado as recorrentes crises do capitalismo com políticas de austeridade. Cortes de remuneração do trabalho, a busca obsessiva pelo equilíbrio fiscal, em contextos recessivos, e cortes nos auxílios públicos têm sido utilizados como solução, mesmo com efeitos devastadores sobre o bem-estar socioeconômico.
De acordo com o mais recente relatório da Oxfam, “nos últimos 10 anos, os bilionários dobraram sua riqueza, ganhando quase seis vezes mais do que o aumento do patrimônio dos 50% mais pobres”. Privilégios fiscais e brechas há décadas beneficiam os mais ricos em diversos países, concentrando riquezas no topo e socializando prejuízos em momentos de crise. Entre nós, brasileiros, a insegurança alimentar avançou para mais da metade da população e a fome atingiu 33 milhões de pessoas em 2022.
Afinal, qual foi mesmo o resultado das políticas de austeridade após a crise financeira global de 2008, logo depois do breve momento keynesiano? A emergência da extrema-direita na Europa e nas Américas? A crise da democracia liberal é mundial, porém precisamos encarar o fato de que o baixo desempenho da economia brasileira revelou que não estávamos no caminho do crescimento sustentado e da prosperidade coletiva.