Até a década de 60, o Espírito Santo tinha uma economia predominantemente agrícola, basicamente cafeeira, e uma população majoritariamente rural. No ano de 1960, apenas para tomarmos um ponto de referência, nossa agropecuária foi responsável pela geração de cerca de 52% do total de riqueza produzida no estado. Porém, ao longo do tempo, vamos ver o setor perdendo participação no PIB até início da primeira década do século XXI, chegando a 2002 com apenas 3,5%.
As dimensões dos percentuais impressionam e aparentemente podem levar à conclusão, até óbvia, de que nossa agricultura praticamente definhou. O que não é verdade, pois mudanças sobretudo qualitativas, mas também quantitativas, principalmente no caso do café, mostraram-se presentes em toda a trajetória temporal.
Em síntese, o que ocorreu foi que a economia capixaba passou por um processo acelerado e profundo de transformações entre 1970 e o final da década de 90, como nenhum outro estado brasileiro. Enquanto a economia brasileira cresceu 242%, em termos reais, entre 1970 e 2000, a economia capixaba literalmente “pocou” chegando a 538%.
Foi quando a indústria passou a comandar a dinâmica da economia saindo de uma participação de apenas 6% em 1960 para 36% em 2000. Enquanto isso, por outro lado, puxado pela indústria e pela forte urbanização da população, o setor terciário também ganhou mais peso, turbinando sua participação de 43% para 64%.
Esses dois movimentos provocaram a perda relativa de participação da agricultura, porém não necessariamente em termos absolutos, ou seja, de valor da produção e valor de riqueza produzida.
Nos últimos vinte anos, no entanto, as coisas mudaram. Vamos observar mudanças diferentes do período anterior nas trajetórias de crescimento dos setores da economia, com a indústria reduzindo o ritmo, o setor terciário praticamente mantendo-se como fiel da balança e o setor agropecuário acelerando. Enquanto a economia como um todo cresceu 46% em termos reais entre 2002 e 2020, a agropecuária, no conceito “dentro da porteira”, cresceu 90%. Simplesmente o dobro. Inclusive superando a agropecuária nacional que no mesmo período cresceu 50%.
Infelizmente, a metodologia utilizada na contabilidade nacional somente nos mostra o que é adicionado de valor dentro dos estabelecimentos rurais. Ou seja, nada antes ou além das “porteiras”. No caso do Espírito Santo, por exemplo, a participação no valor adicionado bruto total do setor agropecuário passou de 3,5% em 2002 para 4,5% em 2020. Se levarmos em conta todas as atividades que de alguma forma possam estar vinculadas ou decorrem das atividades da agropecuária, chegamos a um conceito bem mais amplo que é o do agronegócio.
Segundo cálculos efetuados pelo Instituto Jones Santos Neves para o ano de 2015, se não me engano o último disponível, o agronegócio capixaba, num conceito mais abrangente, chegou a representar cerca de 28% do PIB. É o que poderíamos também chamar de economia “rurbana”, uma mistura de atividades rurais e urbanas, um espaço que tem crescido em novas oportunidades de negócios.