Nos últimos dias foram divulgados diversos números sobre a indústria do Brasil e do Espírito Santo, refletindo um cenário negativo para a economia em geral. Pela primeira vez a fatia do Brasil no comércio global de produtos manufaturados ficou abaixo de meio por cento, chegando a 0,47%.
Nos últimos 10 anos, o país passou de 28º para 34º no ranking mundial, ficando atrás de países como Rússia, Índia, México e Hungria – a China lidera a lista. Os dados são do Iedi, Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.
Outro tombo: pelo segundo ano consecutivo, a balança comercial de manufaturados fechou com saldo negativo superior a US$ 100 bilhões: foram US$ 111,3 bi negativos em 2021 e US$ 128 bi no ano passado.
Já no Espírito Santo, segundo o IBGE, a produção industrial caiu nada menos que 46% nos últimos dez anos, com queda puxada para baixo pela indústria extrativa, severamente afetada pelos desastres de Mariana e Brumadinho e pela queda da produção de petróleo.
Para além dos desastres, que são pontos fora da curva, o fato é que os números indicam um problema estrutural que a economia brasileira enfrenta há décadas.
Esse problema tem nome e sobrenome: chama-se Custo Brasil, certamente já conhecido pelos leitores dos meus artigos. Trata-se de um conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, trabalhistas e econômicas que minam a nossa competitividade.
O que fazer? Atacar esse custo com reformas estruturais, um debate que está há anos na mesa, e que já ganhou inclusive uma importante frente no Congresso Nacional, a Frente Parlamentar Brasil Competitivo, criada em 2021, com mais de 200 deputados e senadores comprometidos com essa agenda.
As lideranças nacionais e estaduais precisam se dedicar cada vez mais a essa agenda, para conseguirmos avançar. Nossa bancada federal, por exemplo, deveria se engajar nessa frente.
O Estado de São Paulo acaba de dar um grande exemplo para os demais. Dias atrás, o governador Tarcísio de Freitas assinou 11 decretos que reduzem a carga tributária de vários segmentos do setor produtivo paulista, cumprindo uma promessa de campanha, de reindustrializar o Estado que historicamente sempre foi o mais industrializado e – não por acaso – o mais rico do país.
Na semana passada, o governador Tarcísio também celebrou com o Movimento Brasil Competitivo (MBC), um acordo de cooperação, com o objetivo de unir esforços e promover a redução do “custo São Paulo”, aumentando a competitividade das empresas paulistas, um exemplo que deve ser seguido pelos outros Estados.
No Espírito Santo, o secretário estadual de Planejamento, Álvaro Duboc, divulgou dados positivos do Instituto Jones dos Santos Neves, prevendo mais de R$ 50 bilhões em investimentos em terras capixabas até 2026.
Temos incentivos importantes como o Invest-ES e o Compete-ES, temos o Fundo Soberano, para financiar novos negócios, com foco em inovação e na diversificação da economia local. Somente nos dois primeiros meses do ano os incentivos atraíram para o Estado em torno de 117 empresas, com a criação de 800 empregos diretos, número que parece positivo, mas, ao analisá-lo com lupa, percebe-se que a grande maioria é de atividades não manufatureiras, ou seja, possuem baixo valor agregado, e é isso que precisamos mudar.
As lideranças políticas e empresariais do Estado têm conseguido avançar na diversificação da economia capixaba. A Suzano está investindo em nova fábrica de papel higiênico em Cachoeiro de Itapemirim e no retrofit da planta em Aracruz. A Nestlé/Garoto está investindo R$ 200 milhões em Vila Velha. A Café Cacique e a Olam Internacional transformarão Linhares em centro mundial de produção de café solúvel. Britânia, Weg e Biancogrês também estão ampliando a produção. Esses investimentos são de extrema importância para a geração de empregos e para a diversificação da economia, e precisam ganhar uma escala maior.
Os números, contudo, não mentem: é evidente que temos um desafio estrutural e que precisamos de muito mais para alavancar a indústria local e nacional, lembrando que é a indústria que gera os empregos mais qualificados e mais bem remunerados, sendo responsável também pela inovação e pelo desenvolvimento tecnológico em todos os demais setores. Por isso, sempre dizemos que não existe economia sólida sem indústria sólida.
Temos no horizonte uma boa promessa: o grupo de trabalho criado na Câmara dos Deputados para dar andamento à reforma tributária pretende apresentar o relatório sobre o tema no dia 16 de maio.
Temos chance, portanto, de aprová-la nos próximos meses, quem sabe no primeiro semestre. É um passo importante, mas precisamos de seguir com a agenda reformista, aproveitando este início de governo, quando ainda há um clima de lua de mel com o Congresso e os eleitores. Esse clima se dilui no tempo, é importante agir com celeridade.