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Economia

Indústria do ES: discussão bem oportuna, sem polêmica

Olhando para o futuro, sem dúvida, é na indústria de transformação que as atenções deverão estar mais voltadas, pois é onde podemos encontrar mais espaço para se avançar em termos de agregação de valor, complexidade econômica e competitividade

Publicado em 04 de Março de 2023 às 00:10

Públicado em 

04 mar 2023 às 00:10
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman

Quem lê e acompanha mais de perto os artigos dos colunistas de A Gazeta deve ter notado que nas últimas semanas ocorreram discussões, até certo ponto acaloradas, para não dizer também controversas, sobre o desempenho da economia capixaba em geral, mas com foco principalmente no setor industrial, em relação aos últimos dez anos.
O que se colocou na arena do debate foi a questão do baixo desempenho da economia “puxado” exatamente pelo setor secundário. Uma discussão bem oportuna e também crucial no projetar-se e construir-se o futuro do Espírito Santo.
Pessoalmente, em meus artigos mais recentes, venho chamando a atenção para essa questão, sendo compartilhado pelos meus colegas colunistas Antônio Carlos Medeiros Pablo Lira. O debate esquentou a partir de artigo escrito pelo jornalista Luis Nassif, no veículo GGN, do qual é articulista, que abordou o fraquíssimo desempenho da economia capixaba no período entre 2010 e 2020, realçando a posição de “lanterninha” dos setor industrial como fator responsável pelo “desastre” na economia.
No que foi fortemente contestado em artigo do Pablo Lira sob o título “O olhar míope de Luis Nassif sobre a indústria do ES”, com réplica imediata de Nassif em espaço cedido por A Gazeta em “O polemista e moinhos de vento”.
O que observo é que as análises, resultados e argumentos utilizadas proveem de um única fonte oficial, o IBGE: PIM-Pesquisa Industrial Mensal e PIB. Nesse aspecto não há como contestar os números. De fato a economia capixaba, incontestavelmente, sofreu queda real de 2,19% no período entre 2010 e 2020, refletindo-se em queda de 21% no PIB per capita, já que a população cresceu 15%. A indústria foi a grande responsável pelos resultados. O volume físico da produção industrial nesse mesmo período caiu 19%, com quedas mais acentuadas na extrativa mineral, leia-se petróleo e minério de ferro, e menos 31% na indústria de transformação.
Como já registrei em artigos anteriores, em se tratando de economia capixaba temos sempre que ter muito cuidado no trabalhar e analisar os números. O ano de 2010 foi o melhor ano da economia desde 1978, quando foi registrado crescimento de 19%. O PIB capixaba cresceu 15% em termos reais em 2010. Nem a China chegou a tanto. Ora, se tomo um ponto máximo de uma série e comparo com outro ponto que podemos considerá-lo o mais baixo da série vamos ter um resultado real, confiável, porém enviesado, pois estaremos trabalhando com dois pontos fora da curva.
Tomemos, por exemplo, 2009 como base para ver o que acontece. Vejam que estaremos comparando dois pontos baixos da série. O PIB real cresce 13% no período, o emprego com carteira assinada 14% e o volume físico industrial 6%, com o setor extrativa mineral crescendo 23%. Mas encontramos aqui um dado preocupante: a indústria de transformação, que inclui segmentos como siderurgia e celulose, em volume físico, caiu 28%. Melhores resultados vamos encontrar comparando 2009 com 2021: um ano de baixa com um ano de alta.
Olhando para o futuro, sem dúvida, é na indústria de transformação que as atenções deverão estar mais voltadas, pois é onde podemos encontrar mais espaço para se avançar em termos de agregação de valor, complexidade econômica e competitividade. E é onde alcançaremos também maior autonomia relativa.
Uma discussão bem oportuna que vale ser intensificada, tornando-a mais ampla.

Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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