No último dia 11 de fevereiro, uma publicação nacional assinada pelo jornalista Luis Nassif chamou atenção dos capixabas, especialmente às lideranças e profissionais que trabalham muito em favor do desenvolvimento do setor secundário da economia.
Algumas pessoas classificaram a publicação de “artigo”, porém a superficialidade analítica o caracteriza mais como uma colagem de gráficos. Por falar nisso, a colagem do Nassif não registra os títulos e fontes de informações nos seus quatro gráficos apresentados, ou seja, duas condições básica exigidas pelos manuais estatísticos para minimamente garantir transparência e credibilidade ao documento.
O título da publicação é “A tragédia de indústria do Espírito Santo” (sic). Da forma que está colocado, tal título pode sugerir, injustamente, que a alardeada “tragédia” foi ocasionada pelas lideranças e representantes da indústria estadual.
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A leitura dos gráficos do “artigo" supostamente indica que entre 2012 e 2022 a indústria do Espírito Santo teve um forte desempenho negativo. Todavia, a colagem do Nassif é limitada e míope ao ponto de não tecer uma única linha textual analisando os dados largados na tela do computador dos leitores. Um especialista que conhece minimamente a indústria do ES poderia ter sido convidado para colaborar com a análise.
O compromisso com a honestidade intelectual, a ciência e transparência nos motiva a analisar alguns pontos relevantes e fatos históricos que possibilitam compreender melhor o resultado da indústria capixaba no período citado, que foi marcado por um conjunto de adversidades e desafios.
Vale lembrar que em 2012 o Espírito Santo registrava forte expansão na indústria de petróleo e gás. De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), em 2002 o Estado respondia por menos de 2% da produção de petróleo do país. Em 2012, esse indicador era superior a 15% e o Espírito Santo se tornou o 2º maior produtor de petróleo entre os estados brasileiros, ficando atrás somente do Rio de Janeiro.
Entretanto, nos dez anos seguintes os campos de petróleo localizados no território capixaba foram gradativamente perdendo as capacidades produtivas. Isso sem falar da crise da Petrobras e nos cortes profundos nos planos de investimentos da empresa. Desde o final da década de 2010 o Espírito Santo deixou de ser o 2º maior produtor, sendo superado por São Paulo.
Outro ponto que passou batido na publicação do Nassif foram os expressivos impactos negativos na indústria capixaba ocasionados pelos desastres dos rompimentos das barragens de rejeitos de minério de ferro de Mariana-MG em novembro de 2015 e Brumadinho-MG em janeiro de 2019. Além das mortes e impactos ambientais, esses grandes desastres resultaram na paralisação da Samarco e na significativa redução de atividades da Vale, simplesmente duas das maiores indústrias instaladas em território capixaba. A Samarco somente foi reativada em 2021, mesmo assim operando com 26% de sua capacidade de produção.
O “artigo” desconsidera também que a economia do Espírito Santo, especialmente o setor secundário, é muito conectada com a economia global. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o grau de abertura da economia capixaba é quase o dobro da nacional. Dessa forma, os impactos negativos na economia mundial gerados pela pandemia da Covid-19 foram sofridos mais intensamente pela economia capixaba. Antes mesmo dos primeiros casos da doença serem registrados no ES, protocolos rigorosos de lockdown foram implementados na China, que incluíam a paralisação de plantas industriais. Isso ocasionou uma redução na demanda por produtos do setor secundário da nossa economia, com destaque para as commodities. Insta salientar que a China é um dos principais parceiros da balança comercial do Espírito Santo, assim como a Europa e Estados Unidos, regiões onde os primeiros epicentros da pandemia se estabeleceram.
Mesmo com gigantescas tragédias que desafiaram a indústria capixaba na última década, o ES observou uma maior sofisticação e resiliência de seu setor secundário de atividade econômica. Por meio da integração estratégica e união de esforços do governo estadual, Federação das Indústrias (Findes), prefeituras, ES em Ação e outras instituições comprometidas com o desenvolvimento do setor secundário, estamos observando uma maior atração de indústrias que contribuem para aumentar a diversificação da base produtiva. Nos últimos dez anos constatamos a chegada e operação de indústrias que produzem bens de maior valor agregado, a saber, Weg (2011), Itatiaia (2013) e Marcopolo (2014).
Até 2026 estão anunciados mais de R$ 50 bilhões em investimentos públicos e privados no nosso território, sendo que 93,7% desse montante se caracterizam como empreendimentos industriais, conforme assinala um estudo do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN). A indústria de eletrodomésticos Britânia e a fábrica de café solúvel Olam são exemplos de indústrias diferenciadas que continuam sendo atraídas para o ES.
Os pontos relevantes e fatos históricos aqui brevemente abordados poderiam estar presentes na publicação do Luis Nassif para dar a real dimensão sobre os desafios enfrentados pela indústria capixaba na última década. Da forma superficial que a citada publicação coloca a questão em tela fica até parecendo que as entidades que trabalham em favor do desenvolvimento da indústria do Espírito Santo são responsáveis pela “tragédia” alardeada. Essa questão é muito mais complexa do que parece ser e envolve condicionantes nacionais e internacionais.
Nesse sentido, constata-se que o “artigo” é vago e distante, o que confunde ainda mais sua visão míope e distorcida. Considerando a experiência e trajetória profissional de Luis Nassif seria uma atitude grandiosa se o mesmo tentasse revisar e qualificar a sua publicação se aproximando, ouvindo e dialogando com lideranças e representantes da indústria do Espírito Santo.