Em meu último artigo nesta coluna destaquei as gigantescas tragédias que desafiaram a indústria capixaba na última década, com base em dados de fontes oficiais e fatos históricos.
Dentre essas, foi citada a significativa redução da capacidade produtiva de petróleo e gás na perspectiva da indústria extrativa. Além disso, a indústria capixaba sofreu com os expressivos impactos negativos ocasionados pelos desastres dos rompimentos das barragens de rejeitos de minério de ferro de Mariana-MG em novembro de 2015 e Brumadinho-MG em janeiro de 2019. Também não podemos desconsiderar que os impactos negativos na economia global ocasionados pela pandemia da Covid-19 foram sofridos mais intensamente pela indústria e pela economia capixaba, uma vez que essa registra um grau de abertura que é quase duas vezes superior ao da nacional, conforme apontam os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em seu recente artigo intitulado “Tragédias e barbeiragem federal derrubaram a indústria capixaba”, Luiz Paulo Vellozo Lucas, gestor público com ampla experiência e pesquisador de referência, cita a minha coluna de A Gazeta e estabelece um diálogo produtivo no campo das ideias qualificando ainda mais a análise sobre as gigantescas tragédias enfrentadas pela indústria do ES.
Luiz Paulo concorda que a produção de petróleo e gás vem caindo gradativamente no estado pela maturação dos campos de exploração e acrescenta os efeitos negativos gerados pelo novo marco regulatório para o setor, que desdobrou uma forte redução dos investimentos, diminuição das áreas em exploração e queda na produção de petróleo e gás no país e Espírito Santo.
No mencionado artigo, Vellozo Lucas também ressalta que “as tragédias de Mariana e Brumadinho derrubaram a atividade econômica no complexo minero-siderúrgico” e complementa que “o rompimento das barragens causou prejuízos financeiros tremendos e representa o resultado de decisões equivocadas na avaliação de risco na elaboração e execução dos planos de manutenção das barragens”.
Luiz Paulo conclui seu artigo enfatizando que “não é justo que erros e desastres causados fora daqui e que provocaram a queda brutal da produção na indústria extrativa capixaba sejam usados para puxar para baixo nossa autoestima. Podemos continuar mostrando nossas qualidades de cabeça erguida. Somos um estado diferenciado e um modelo para o Brasil”.
Alinhado com esse pensamento reafirmo que o contexto de adversidades enfrentados pela indústria capixaba na última década é muito mais complexo do que parece ser e envolve condicionantes nacionais e internacionais. Devemos ser prudentes e responsáveis com essa análise da indústria do ES, não dá para sair por aí tentado impor na bravata ideias superficiais sem fundamentação.
Também reforço o pensamento de que mesmo com gigantescas tragédias que desafiaram o setor secundário da economia na última década, o ES observou uma maior sofisticação e resiliência de sua indústria. Existe uma consolidada união de esforços entre lideranças e representantes da indústria capixaba para promover uma maior atração de empreendimentos que contribuem para aumentar a diversificação da base produtiva. Insta salientar que essa sinergia não é a regra em outros estados brasileiros.
Por conta dessa ambiência de integração estratégica, na última década observamos a chegada e operação de plantas industriais que produzem bens de maior valor agregado, como a Weg (2011), a Itatiaia (2013), a Marcopolo (2014), dentre outras. Os exemplos não param por aí, de acordo com uma pesquisa do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), até 2026 estão anunciados mais de R$ 50 bilhões em investimentos públicos e privados no nosso território, sendo que 93,7% desse montante se caracterizam como empreendimentos industriais. A indústria de eletrodomésticos Britânia e a fábrica de café solúvel Olam são exemplos de projetos diferenciados que continuam sendo atraídos para o ES. É difícil negligenciar e não reconhecer esses avanços. Tais aspectos desmontam qualquer narrativa vaga e pejorativa sobre a indústria do Espírito Santo.
Para aqueles que têm interesse sobre o tema aqui abordado, deixo uma trilha de conhecimento que pode ajudar como um ponto de partida. Recomendo a leitura do citado artigo de Luiz Paulo Vellozo Lucas e do mais recente artigo de Antônio Carlos Medeiros em A Gazeta. Também, vale uma pesquisa nos sites e repositórios da academia, especialmente das universidades capixabas, do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), da coletânea nacional de livros “Transformações na Ordem Urbana” do INCT Observatório das Metrópoles, na qual participo como organizador e autor no livro que apresenta um aprofundado estudo sobre a industrialização e urbanização do ES, do Observatório da Indústria e da Federação da Indústria (Findes). Essa vereda do conhecimento contribui para ampliar as perspectivas sobre a indústria capixaba, suas especificidades, adversidade e potencialidades, qualificando assim o bom debate de ideias.