Qual é a nossa ambição? Que futuro desejamos para o Espírito Santo? Onde queremos estar nos próximos 20 anos, por exemplo? Esta é uma pergunta que deve ser feita por todos nós, cidadãos, empresários, trabalhadores, lideranças do setor público e privado, se quisermos dar um salto qualitativo no nosso desenvolvimento.
A reflexão é necessária para estabelecermos objetivos que podem se desdobrar em ações e projetos, numa construção democrática e participativa.
Devemos construir essa resposta compreendendo nossas fortalezas e potencialidades, avaliando a ação concorrencial de outros Estados e países, para assim chegarmos a um projeto exequível e que possa oferecer maiores oportunidades para a população e para os jovens que chegam ao mercado de trabalho.
O Espírito Santo avançou muito nas últimas duas décadas em diversas frentes, sem dúvida. O Estado possui as contas equilibradas, algo raro no país. Reduziu os índices de homicídios e avançou na educação pública. Somos o único Estado com um Fundo Soberano. Estamos entre os cinco Estados mais competitivos do país, de acordo com o ranking do Centro de Liderança Pública (CLP).
Porém, esses resultados positivos ainda não se traduziram, como poderiam, no nosso crescimento econômico. Não somos uma ilha, claro, e nosso desempenho depende também do contexto nacional, que tem sido sofrível, abaixo da média mundial. Pois o nosso conseguiu ser pior nos últimos dez anos, como demonstra o Indicador de Atividade Econômica (IAE) produzido pelo Findes/Ideies.
De 2011 a 2020, a taxa acumulada de crescimento do país foi de somente 2,7%. É mais uma década perdida. E no Espírito Santo, no mesmo período, a taxa foi de apenas 0,1%. O dado é assustador, não estamos falando de um ano, estamos falando de taxa acumulada de 10 anos. Historicamente, nossa participação no PIB do país tem ficado abaixo de 2%. Pesquisa do IBGE de 2018 mostra que a participação do ES no PIB nacional é de 1,95%.
Na iniciativa privada, contudo, temos excelentes exemplos de grupos empresariais capixabas que conseguiram avançar com operações robustas fora do Estado. É o caso de companhias como Autoglass, Fucape, Fibrasa, RDG, Laticínios Dammare, Zucchi, Sá Cavalcanti, Águia Branca, Tristão, Fortlev, Incospal para citar alguns, e, mais recentemente, Wine e PicPay. Mas ainda são poucos, temos potencial para muito mais.
Se podemos no setor privado, por que não no setor público? O Espírito Santo já é um case nacional de gestão fiscal e de ambiente de negócios, mas o desafio agora é traduzir isso em expansão significativa de nossas riquezas, gerando mais empregos e oportunidades.
Essa nossa ambição futura deve estar associada a um plano de desenvolvimento econômico de longo prazo para o Estado. O plano deve ser um verdadeiro pacto pelo desenvolvimento, firmado entre os mais diversos atores, envolvendo de fato os poderes constituídos e a sociedade civil, para que possamos traçar um rumo e ações objetivas.
A construção tem de ser apartidária, pois planos assim precisam transpassar mandatos. Grandes empresas, que apesar de não terem origem no Estado, têm aqui importantes operações, devem participar ativamente. Devemos incorporar a visão desse novo mundo em construção, onde a tecnologia e a inovação têm papel central.
Precisamos ainda ter uma carteira de investimentos públicos estratégicos já definida, com projetos sendo elaborados, para termos velocidade de contratação e execução. Temos recursos, temos capacidade de endividamento. Se tivermos uma boa carteira de projetos, que não fique limitada a um mandato político, estaremos dando mais um exemplo de política com P maiúsculo.
O Estado de São Paulo, que é a nossa principal referência em negócios, tem escritórios de atração de investimentos fora do país, em Xangai e Dubai, e uma agência de desenvolvimento que realmente funciona.
Além disso, essa ambição do Espírito Santo deve incluir também a qualificação de nosso posicionamento político, para possibilitar a participação em postos estratégicos em Brasília e ampliar a nossa voz nacionalmente.
A história recente do Estado mostra como foi importante a participação de dois capixabas ilustres no governo federal, nos anos 70: Ernane Galvêas, que foi presidente do Banco Central e ministro da Fazenda, e Marcos Vianna, que foi presidente do BNDES. A notória atuação dos dois foi relevante na construção dos chamados grandes projetos industriais, que impulsionaram o nosso desenvolvimento e diversificaram a nossa economia, antes limitada ao café.
Passados 40 anos, está mais do que na hora de darmos outro salto em busca de um novo ciclo de desenvolvimento econômico e social, para ultrapassarmos a barreira histórica dos 2% do PIB e gerarmos novas oportunidades para os capixabas.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta