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História

Os soldados invisíveis contra o Grande Exército de Napoleão

Mais recentemente, um grupo de cientistas do Instituto Pasteur (ironicamente a França revendo sua história) conseguiu recuperar e estudar sequências de DNA dos dentes de soldados franceses mortos na retirada da Grand Armée, na cidade de Vilnius

Publicado em 04 de Dezembro de 2025 às 03:00

Públicado em 

04 dez 2025 às 03:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

Em junho de 1812, Napoleão I, imperador da França, reconhecido gênio militar que redesenhou na época o mapa da Europa, organizou um exército de 500 mil a 600 mil soldados para invadir a Rússia. Conseguiu chegar às portas de Moscou sem derrotar decisivamente o Exército russo, que fugia de embates frontais.
Isolado em uma cidade deserta e arruinada, Moscou, na prática abandonada pelo exército russo, o corso optou por retirar seu portentoso exército para a fronteira com a Polônia, onde decidiu estabelecer acampamentos de inverno. A retirada da armada napoleônica durou quase dois meses, de 19 de outubro até 14 de dezembro, e resultou na sua quase completa eliminação sem qualquer interferência do exército russo.
Historiadores da época atribuíram ao frio intenso na Rússia (o “general inverno”), à fome (dificuldade das linhas de suprimento do exército francês) e às doenças a destruição do poderoso exército. JRL de Kirckhoff, médico durante a campanha, escreveu um livro detalhando as doenças que afligiam os soldados.
Ele descreve tifo, diarreias, disenteria, febres, pneumonias e até icterícia. Tifo, em particular, era uma hipótese provável para a destruição do enorme exército napoleônico (La Grand Armée), inclusive pela descrição comum de piolhos nas roupas de soldados mortos. Alguns cientistas isolaram Ricketsia prowasekii, causadora do tifo epidémico, em restos mortais de soldados da expedição à Rússia.
Mais recentemente, um grupo de cientistas do Instituto Pasteur (ironicamente a França revendo sua história) conseguiu recuperar e estudar sequências de DNA dos dentes de soldados franceses mortos na retirada da Grand Armée, na cidade de Vilnius (capital da Lituânia). Os pesquisadores identificaram material genético da Salmonella enterica (subespécie entérica), causadora da febre paratifoide e da Borrelia recurrentis, causadora da febre recorrente transmitida por piolhos.
Napoleão e a sua Grande Armée em marcha durante a chamada Campanha dos Seis Dias, em 1814
Napoleão e a sua Grande Armée em marcha durante a Campanha dos Seis Dias, em 1814 Crédito: Jean Louis Ernest Meissonier/Wikimedia Commons
O Grande Exército de Napoleão (Le Grande Armée) foi um dos mais poderosos do século XIX. Dizem os historiadores que para cruzar o rio Niemen para invadir a Rússia foram necessários quatro dias e três pontes para que todos os soldados atravessassem. Até então, o Grande Exército era praticamente invencível.
É irónico que soldados invisíveis, os microrganismos, tenham contribuído para sua derrota, abalando decisivamente a reputação de Bonaparte, incentivando outras nações europeias a se unirem contra ele até o derrotarem em 1814. É a ciência ajudando a decifrar a história, por meio de diagnóstico molecular em investigação de amostras adormecidas por mais de duas centenas de anos.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doencas Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaco quer refletir sobre saude e qualidade de vida na pandemia.

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