Como ex-morador do Centro de Vitória, guardo na memória boas lembranças da época na qual a vida social, política e econômica do Espírito Santo pulsava em torno da Praça 8 de Setembro. Ali se realizavam os grandes comícios das campanhas eleitorais. A Assembleia Legislativa abrigava os debates e as votações mais importantes que decidiam os destinos do Estado.
O comércio mais intenso se dava na Avenida Jerônimo Monteiro, onde também estavam as agências bancárias de maior porte. O Centro do Comércio do Café, na Praça Costa Pereira, era o maior ícone da nossa economia.
Acompanhei de perto o esvaziamento progressivo do nosso centro histórico. Saíram a Assembleia, o Tribunal de Justiça, a Prefeitura, a Câmara Municipal, as faculdades, inúmeras repartições públicas, os profissionais liberais.
O Parque Moscoso deixou de ser o endereço das famílias mais abastadas. Os bailes do Álvares Cabral se mudaram para Bento Ferreira. Também foi para longe boa parte do comércio e dos serviços e, com eles, os bancos. Ficaram, solitários, o Palácio Anchieta, a Catedral Metropolitana e o patrimônio histórico. Segundo a Prefeitura, o centro, que já abrigou 30% da população da capital, hoje só tem 10% dos moradores.
Ao caminhar pelas ruas do centro me emociono quando percebo alguma iniciativa que procura romper o ciclo da decadência. Aplaudo a nova academia de ginástica. O Mercado da Capixaba e o Sesc Glória reconstruídos. A restauração do Carlos Gomes. A utilização dos armazéns portuários voltados para a cultura e o turismo. A construção da ciclovia do cais do porto.
E me entristeci quando a Câmara Municipal desistiu de se mudar para o Edifício Castelo Branco por ter a Caixa Econômica Federal recuado na desocupação do prédio recém-invadido pela organização intitulada Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), situação, aliás, que perdura até hoje, infelizmente, sem qualquer solução.
Por isso, recebo com satisfação a notícia de que a Prefeitura Municipal de Vitória continua empenhada em dar continuidade à revitalização do centro. Tanto que, após contratar, em 2024, um plano estratégico de requalificação urbana do local, objetivando melhoria na infraestrutura, aumento da segurança, atração de investimentos, valorização e melhor qualidade de vida para os moradores, anuncia o início de implantação do Programa de Reabilitação da Área Central (ReAC).
O programa prevê a viabilização de 11 mil novas moradias e a atração de 27,5 mil moradores e R$ 6 bilhões em investimentos. Isso ocorreria com facilidades no licenciamento de obras, transferência de potencial construtivo e estímulos para habitações sociais.
De acordo com o programa, o proprietário que investir na preservação de um imóvel histórico no centro, além de celeridade no licenciamento, terá a possibilidade de converter 100% do potencial de construção do lote em um certificado que pode ser vendido a terceiros para uso em outras áreas.
A Prefeitura acredita que, com as medidas, possa atrair, além de habitações populares, centro de convenções, bares, restaurantes, lojas de grifes, escritórios, startups e hotéis.
O novo programa já foi oficializado através de decreto da prefeitura publicado no dia 20. Ele se junta a obras importantes anunciadas anteriormente como a revitalização das ruas Gama Rosa e Sete de Setembro, já em andamento, e o aproveitamento dos Edifícios Getúlio Vargas (antigo IAPI) e Jerônimo Monteiro (na avenida do mesmo nome) para abrigar moradias populares.
Renasce novamente em nossos corações a esperança de que o centro da cidade volte a ser presença importante na vida dos capixabas. Será?