As recentes declarações da prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan, chamaram a atenção de urbanistas, economistas e profissionais do mercado imobiliário em todo o país. Segundo ela, trabalhadores com renda entre R$ 5 mil e R$ 15 mil mensais já encontram dificuldades para alugar ou comprar um imóvel na cidade.
A constatação levou o município a revisar sua política urbana, permitindo a construção de moradias menores e mais acessíveis como forma de atrair de volta a população trabalhadora.
À primeira vista, a afirmação pode parecer exagerada. No entanto, ela revela um fenômeno urbano conhecido em diversas cidades de alta valorização imobiliária: quando o mercado cresce de forma tão intensa que passa a excluir justamente aqueles que sustentam o funcionamento cotidiano da cidade.
Esse é um debate que Vitória, especialmente seu Centro Histórico, não pode ignorar. O desenvolvimento urbano não pode ser medido apenas pelo valor do metro quadrado, pela quantidade de edifícios de alto padrão ou pelo volume de investimentos privados. Uma cidade verdadeiramente desenvolvida é aquela capaz de conciliar crescimento econômico, dinamismo imobiliário e diversidade social.
Uma cidade precisa continuar cabendo para quem trabalha nela. Ela precisa comportar o comerciante, o professor, o policial, o enfermeiro, o médico, o corretor de imóveis, o servidor público, o motorista de aplicativo, o garçom, o profissional liberal, o jovem que inicia sua carreira e a família que deseja permanecer próxima do trabalho, da escola e dos serviços urbanos.
Quando esses grupos deixam de conseguir morar na região onde exercem suas atividades, surgem consequências que vão muito além da questão habitacional.
Aumentam os deslocamentos diários, cresce a pressão sobre o sistema viário, eleva-se o custo da prestação de serviços, reduz-se a vitalidade econômica dos bairros e diminui a ocupação permanente dos espaços urbanos. Uma cidade pode continuar extremamente valorizada do ponto de vista financeiro, mas começar a perder eficiência do ponto de vista urbano.
O Centro de Vitória reúne características únicas para evitar esse cenário.
Possui infraestrutura consolidada, oferta de transporte coletivo, equipamentos públicos, patrimônio histórico, comércio tradicional, serviços especializados e localização estratégica.
Reunidas, essas características permitem que a região seja pensada como um espaço capaz de receber moradores de diferentes perfis econômicos, preservando sua diversidade e ampliando sua vitalidade.
Essa talvez seja a maior missão do planejamento urbano contemporâneo: criar cidades economicamente fortes sem transformá-las em territórios exclusivos. O mercado imobiliário tem papel decisivo nesse processo.
Não basta produzir imóveis. É necessário compreender para quem eles são produzidos e como dialogam com as necessidades reais da cidade. O desenvolvimento sustentável do mercado depende do equilíbrio entre oferta, demanda, mobilidade, infraestrutura, emprego e qualidade de vida.
O próprio exemplo de Balneário Camboriú demonstra essa realidade. O município, reconhecido nacionalmente pelo mercado imobiliário de alto padrão, passou a discutir habitações menores e mais acessíveis justamente porque identificou que parcela significativa dos trabalhadores já não conseguia permanecer na cidade.
Vitória dispõe da oportunidade de aprender com essa experiência antes que enfrente problema semelhante.
O Centro da Capital deve ser planejado para receber novos empreendimentos, incentivar a reocupação dos imóveis ociosos, ampliar a oferta habitacional e preservar a convivência entre diferentes faixas de renda. Uma cidade equilibrada não elimina os empreendimentos de alto padrão. Ela cria condições para que eles coexistam com moradias destinadas às diversas necessidades da população.
Nesse contexto, a atuação do corretor de imóveis torna-se ainda mais relevante.
O profissional moderno não exerce apenas a função de aproximar comprador e vendedor. Ele interpreta o mercado, compreende as transformações urbanas e auxilia o cliente a tomar decisões conscientes.
Ao apresentar um imóvel, o corretor deve ajudar o comprador a entender o conjunto da operação. Não se trata apenas do preço de aquisição. É preciso considerar os custos permanentes de manutenção, condomínio, mobilidade, acesso aos serviços, liquidez futura, perfil da vizinhança e perspectivas de desenvolvimento da região.
Mais do que vender um imóvel, o corretor orienta uma decisão que influenciará a qualidade de vida da família durante muitos anos.
Por isso, compreender a dinâmica urbana deixou de ser um diferencial e passou a integrar a própria consultoria imobiliária. Quanto maior for a capacidade do profissional de explicar como a cidade evolui, quais são os vetores de valorização e quais os impactos daquela escolha sobre a vida do comprador, maior será a segurança da negociação.]
O desenvolvimento imobiliário e o desenvolvimento urbano precisam caminhar juntos. Quando isso acontece, valorizam-se os imóveis, fortalece-se a economia e melhora-se a qualidade de vida.
Uma cidade realmente bem-sucedida não é aquela que apenas atrai investimentos.
É aquela em que todos aqueles que contribuem diariamente para seu funcionamento continuam tendo espaço para viver, trabalhar e construir seu futuro. Esse deve ser um dos principais objetivos para o Centro de Vitória. Afinal, uma cidade só alcança seu pleno desenvolvimento quando continua cabendo para as pessoas que lhe dão vida todos os dias.