Já ouvi tantas vezes esse conselho dado ao presidente da República que perdi a conta. “Procure coordenar as ações entre União, Estados e municípios”, recomendou Toffoli quando da tresloucada marcha do presidente, no dia 7, acompanhado por empresários, ao STF. “Governe”, aconselhou o governador João Doria, de São Paulo. Delfim Neto chegou a lembrar que a coordenação (do comportamento da União, Estados e municípios) “é uma exigência constitucional”. “Estamos descoordenados”, disse o ex-governador Paulo Hartung em recente palestra.
Que falta coordenação do governo federal com relação às providências de enfrentamento à pandemia do coronavírus, creio que ninguém duvida. Mas creio também que não há dúvida de que o presidente Jair Bolsonaro não é a pessoa indicada para cumprir esse papel. Quando estava no ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta tentou fazer essa coordenação e foi atropelado pelo presidente. O seu sucessor nem chegou a tentar coordenar alguma coisa pois percebeu, desde o primeiro instante, que não conseguiria. Desautorizado várias vezes pelo presidente, pediu o boné e foi cuidar da sua vida.
Bolsonaro, desde o primeiro dia do seu mandato, demonstrou que não seria capaz de cumprir a chamada “liturgia do cargo”. Não mede palavras e seu desequilíbrio multiplica crises. Brigou até com quem o ajudou a se eleger, rompeu com as principais figuras do seu partido e, mais recentemente, demitiu – ou empurrou para fora do governo – seus melhores ministros. Que nunca chegou a se comportar como um presidente da República, todos sabemos.
Mas o que o presidente tem feito durante a pandemia do coronavírus é inacreditável. Enquanto o país enterra os quase 20 mil mortos, ele pratica tiro ao alvo, passeia de jet-ski, visita postos de combustível, vai a manifestações que pedem intervenção militar e trata com desdém (“e daí?”) o sofrimento da população.
Não bastasse ter chamado de “gripezinha” a maior contaminação ocorrida em um século, o presidente se ocupa em fazer piadas – como a da “tubaína” – com coisa séria. Receita remédio – como se fosse um grande especialista em medicina –, incentiva a população a descumprir o distanciamento social – contrariando a comunidade científica –, e tenta jogar do colo de governadores e prefeitos a culpa da mortandade.
A insensibilidade – para usar uma expressão amena – do presidente assusta até os seus seguidores. Não é à toa que sua popularidade derrete à medida que os hospitais entram em colapso por falta de vagas para acolher os doentes e os cemitérios não suportam mais a quantidade de sepultamentos. A cada dia que passa, a população ganha mais consciência de que o país está à deriva, sem coordenação, sem direção e sem governo.