O discurso de posse de Joe Biden é uma lição de democracia que, além de virar a página da história americana – dando um elegante, mas firme, “chega pra lá” na truculência que foi a marca do governo Trump – cai como uma luva na cena política brasileira. Citando Santo Agostinho, Biden disse que um povo é “uma multidão definida pelos objetos comuns de seu amor: oportunidade, segurança, liberdade, dignidade, respeito, honra, e – enfatizou – sim, a verdade”.
Ah, a verdade. A verdade, essa nossa “inestimável conquista civilizatória” que vira pó na “farra das fake news e a permissividade das redes” que promovem a “subversão/negação da realidade objetiva e a consolidação de uma sociabilidade perversa, aquela em que vale a versão/vontade (...) do mais ardiloso”, como ensina o professor José Antonio Martinuzzo.
Há duas semanas, o STF divulgou nota enfatizando que União, Estados, Distrito Federal e municípios têm “competência concorrente na área de saúde pública para realizar ações de mitigação dos impactos do novo coronavírus”. Na última segunda-feira (1º), na abertura do ano do Judiciário, o presidente do STF reafirmou que aquela corte nunca retirou do governo federal o poder de agir contra a pandemia de Covid-19, mas sim delegou a ação a todos os níveis de governo. E mais: que não se deve “ouvir vozes isoladas” de “pessoas que abusam da liberdade de expressão”, “vozes obscurantistas que precisam ser combatidas em todos os lados”. Ao seu lado, o presidente Bolsonaro ouviu tudo calado. E calado se retirou ao fim da solenidade.
E por que o STF teve que, duas vezes seguidas, esclarecer a sua decisão, tomada há meses, de que prefeitos e governadores têm legitimidade para tomar medidas locais de restrição de circulação, mas que isso não exime o governo federal da sua responsabilidade de atuar contra a disseminação da doença? O STF fez isso porque, pela 77ª vez, Bolsonaro repetiu que estava impedido, pela corte, de combater a Covid-19, em mais uma tentativa de se esquivar da responsabilidade pelos 227 mil brasileiros mortos na pandemia.
É assim, distorcendo os fatos, que o governo federal tenta esconder a sua incompetência: não combateu a pandemia porque foi impedido pelo STF (por isso a culpa das mortes é dos governadores e dos prefeitos), não comprou vacinas e seringas porque os fabricantes aumentaram os preços, não enviou oxigênio para Manaus porque não foi avisado em tempo e porque não é sua obrigação, não atualiza a tabela do Imposto de Renda porque “o Brasil está quebrado”.
A mais recente versão inventada pela rede de fake news bolsonarista é a de que o governo não realizou as reformas porque foi impedido por Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, então presidente do Senado. Acredite quem quiser nessa mais nova desculpa da interminável novela de mentiras a que somos diariamente expostos.