O ano de 2020 merece ser esquecido. Visto por todos os ângulos possíveis, ele nos traz péssimas lembranças. Nele, ficamos confinados, isolados, amedrontados diante da ameaça invisível do coronavírus, que está em toda parte multiplicando mortes e sequelas. Ele foi o ano da pandemia, a maior dos últimos cem anos, que vitimou as famílias e dizimou a economia. O ano da perda do convívio, dos empregos, da atividade econômica, o que fez com que o mundo se tornasse mais pobre, triste e desiludido. O ano do caos.
É difícil mensurar todas as perdas ocorridas em 2020. Na educação, por exemplo, a qualidade da aprendizagem foi reduzida drasticamente, principalmente no que se refere ao ensino fundamental e médio. Mesmo com todos os esforços empreendidos pelos educadores, o ensino a distância não se equipara ao presencial. Sem falar da demora, ocorrida em muitas instituições de ensino, em efetivar a transição da sala de aula para o computador. Como o retorno ao ensino presencial pleno irá demorar – por causa do repique da pandemia –, não será simples para as nossas crianças e jovens recuperar o aprendizado perdido.
Na saúde das pessoas, as perdas são ainda mais visíveis. Quando não mata, o coronavírus quase sempre deixa sequelas que afetam o organismo das pessoas, muitas vezes para sempre. Até as que não foram infectadas sofrem com as consequências da inatividade forçada pelo isolamento, como a perda de massa muscular. Ou, o que é ainda mais grave, com os males decorrentes da solidão. Ou seja, sobram prejuízos para todo o mundo: além de sozinhos, estamos mais vulneráveis às doenças do mundo.
Mas o ano de 2020 é um ano que também merece ser lembrado. Merece ser lembrado para nunca esquecermos dos desvarios e inconsequências de um governo que foi – e continua sendo – incapaz de reconhecer a gravidade da maior crise sanitária dos últimos cem anos. Um governo incapaz de entender a necessidade da prevenção como forma de reduzir a quantidade de vítimas que hoje, no Brasil, já se aproxima dos 200 mil mortos e 7,6 milhões de infectados.
Um governo que se nega até a reconhecer a importância da vacinação em massa como caminho para colocar um fim na pandemia. E o que é pior: não só é incapaz de reconhecer a importância da vacinação como se presta a desestimulá-la – retrocedendo cem anos ao reviver a “revolta da vacina” que crucificou e, depois, reconheceu os méritos de Oswaldo Cruz – espalhando inverdades para desacreditar a eficiência dos imunizantes, a ciência e o esforço dos pesquisadores.
Um governo assim não merece ser esquecido. Merece ser lembrado para sempre como um exemplo de atraso, de ignorância, de despreparo e de incapacidade de proteger o povo em um momento tão difícil para a humanidade.