Pois é, esperei a trend passar um pouco, até porque não pretendo ser mais um a expressar indignação (nem sempre estritamente espontânea) com a morte horrenda de um cachorro que nunca fez mal a ninguém. Acontece que esse episódio tem muito mais a nos ensinar do que a necessidade de proteção aos animais.
Nosso cérebro simplesmente não funciona de maneira tão esquemática, linear e racional como acreditamos. Por exemplo, nossa memória mistura aquilo que presenciamos, o que ouvimos contar, o que vimos na imprensa, o que era apenas nossa opinião, não um fato, e até sonhos ou delírios.
Cada vez que assistimos a uma matéria jornalística ou um post sobre o mesmo fato, é como se ele se repetisse. Isso obviamente cria a sensação de que os maus tratos a animais estão aumentando, quando, na verdade, o que aumentou foi a nossa repulsa a esse tipo de comportamento (des)humano.
Outra coisa: quanto mais recuarmos no tempo, menos meios de comunicação havia, então, simplesmente não saberíamos o que aconteceu a um pobre cãozinho em outro estado. Isso simplesmente não teria sido discutido fora da cidade onde se deu o fato e seria logo esquecido.
Do mesmo modo, a empatia não é uma operação matemática. O que aconteceu ao Orelha é sentido por cada um de nós como se pudesse ter sido com um membro de nossa família. O resultado é que o brasileiro sentiu a sua própria vida e de seus entes queridos mais ameaçadas não por conta de estatísticas, mas em virtude de um único episódio isolado, por mais bárbaro que tenha sido, ocorrido bem longe e a vítima não fosse um ser humano. Nossa percepção da violência no mundo, nossa sensação de (in)segurança é radicalmente afetada por acontecimentos que não têm uma relação direta com o risco que cada um de nós realmente corre.
E, claro, a esta altura, um monte de políticos já está querendo surfar nessa onda e já deve haver alguns projetos de lei para “resolver” o problema.
Enfim: vamos manter vigilância sobre esse tipo de abuso escandaloso, cobrar a aplicação da lei, mas estejamos atentos para o fato de que esse episódio tão lastimável não implica que o ser humano esteja cada vez mais cruel ou que o mundo esteja cada vez mais violento.
A natureza humana não é inerentemente boa ou má. Como a sociedade responde a comportamentos excepcionalmente elogiáveis ou reprováveis é que determina o que vai prevalecer. Não precisamos de leis mais severas, precisamos de leis mais frequentemente aplicadas
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