Enquanto terminávamos de escrever a coluna da semana passada, surge um episódio semelhante ao de Minas Gerais, agora no Paraná, onde suspeitos de assalto a banco foram mortos em confronto com a polícia. É provável que isso se repita, então merece algumas reflexões adicionais.
O assaltante comum, aquele que nos aguarda em alguma esquina, é geralmente adolescente ou adulto jovem, com 25 anos ou menos, e age sozinho ou com um comparsa, modestamente armado, pela razão simples de que não ganha muito dinheiro. Aliás, não faz sentido arriscar uma arma mais cara, mesmo que disponível, para roubar um celular.
Abordado pela polícia, esse criminoso geralmente se entrega imediatamente, sem sequer esboçar reação. Mesmo não se “regenerando” propriamente, a maioria deixa a “profissão” assim que adquire um pouco mais de maturidade, porque começa a fazer contas e vê que financeiramente não compensa o risco.
Já os que atuam nessa modalidade do “novo cangaço”, mantendo cidades inteiras sob domínio por várias horas, em geral são experientes, têm conexões com “colegas” de todo o Brasil e já venceram essa fase do “medo”; formaram grupos paramilitares e escolheram viver e morrer “pela espada”. Eles não apenas portam fuzis: estão de espírito “armado”, sempre prontos, decididos e dispostos ao confronto, levando isso até mesmo como uma questão de “honra”. Deixar-se apanhar vivo é uma vergonha; escapar de um cerco policial, uma glória pessoal.
Qualquer um que planeje uma operação tentará evitar um enfrentamento, até porque isso também expõe a vida dos policiais e da população próxima. Às vezes é possível aguardar o momento em que os alvos estão distraídos ou mesmo dormindo, mas os novos cangaceiros provavelmente terão sempre alguém de sentinela. Além disso, em muitos casos não é possível ficar escolhendo muito a hora ou o local de dar voz de prisão, porque os alvos estão sempre em movimento e cometendo ou prestes a cometer alguma atrocidade.
Obviamente as polícias não podem recuar diante da resistência armada. Pelo contrário, no grande leque de atuação das instituições, devem ser priorizados exatamente os criminosos mais violentos, os mais calejados, os mais ativos, enfim, os que representam maior quantidade total de risco para a sociedade. Prisões atulhadas de ladrões de galinha não nos deixam mais seguros.
Também não é necessário ser nenhum policial veterano para perceber que, em situações reais, as decisões devem ser tomadas em frações de segundo e que, uma vez iniciado um tiroteio, raramente será possível suspendê-lo antes que algum dos lados fique sem munição ou esteja baleado. Uma vez que as instituições de segurança parecem estar dando a atenção sistemática que o “novo cangaço” exige, é de se esperar a repetição desses incidentes com mortes.
Havia um personagem que, no Brasil, era chamado de “Zorro de Pistola”. No original, era “The Lonely Rider”. Ele não matava ninguém. Apenas desarmava os vilões disparando certeiro em seus revólveres... Não, não existe um modo de lidar com essas situações garantindo que não exista reação por parte dos suspeitos. Se ela ocorrer, não há como ela ser anulada sem o uso da força. Se houvesse, seria utilizada, porque nenhum policial gosta de ficar respondendo a inquérito, mesmo com a consciência tranquila.
A única alternativa verdadeira seria a covardia e a omissão. O máximo razoavelmente exigível dos comandos de cada instituição é evitar, o quanto possível, riscos para os policiais e os transeuntes. É só fazer as contas de maneira realística: nessas situações, não é o policial que escolhe tirar a vida do suspeito; este é que decide fugir abrindo caminho à bala ou morrer tentando.