Não tem jeito. Será necessária uma nova interrupção nas nossas digressões sobre a prova nas apurações criminais. Parece incrível, mas surge quem queira comparar a recente operação em Minas Gerais contra uma suposta quadrilha do “novo cangaço”, em que 26 pessoas perderam a vida, com aquela ocorrida na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em maio deste ano. Somente o número de vitimados é semelhante.
Na época, publicamos aqui várias críticas, muito mais à decisão da cúpula da PCRJ de realizar a operação, do que aos policiais que dela participaram. Nada disso se aplica ao caso recente. Vamos analisar apenas os fatos amplamente divulgados, sem nenhuma informação privilegiada.
No Rio, o teatro de operações foi uma área urbana densamente povoada, cujos moradores ficaram horas em meio a intenso tiroteio. Foi muita sorte não haver vítimas não apenas “inocentes”, mas absolutamente estranhas à operação, atingidas apenas por morar no lugar errado. Além disso, não foi um caso isolado: isso é rotina para quem reside nessas regiões do Rio. Em Minas, embora pareça ter sido atingido o caseiro de um sítio, tratava-se de um local ermo.
No Rio, a operação foi deflagrada em afronta a uma ordem prévia do STF, causando enorme desgaste entre instituições que deveriam estar sempre em perfeita harmonia. Isso para não falar em todo tipo de teoria conspiratória que surgiu na época. Já a ação policial em Minas foi extremamente transparente, não deixando margem a especulações, e não se tem notícia de atritos com outras autoridades públicas.
O resultado no Rio ficou na esfera operacional. Aliás, foi noticiada a apreensão de menos armas que mortos. Mesmo que, naquele confronto, houvessem sido neutralizados todos os integrantes da quadrilha, seria questão de dias ou mesmo horas para que o comércio ilegal de entorpecentes voltasse ao local.
Já em Minas, claramente foi evitada uma ação criminosa extremamente violenta de consequências imprevisíveis. Traficantes portam fuzis com uma finalidade; assaltantes, com outra. Traficantes são substituídos imediatamente; assaltantes jamais são repostos: uma vez presos, os roubos simplesmente deixam de acontecer. Ou seja, havendo a detenção e comprovados os crimes, a sociedade ficaria mais segura, o que significa, no mínimo, resultados táticos. Infelizmente, criminosos desse tipo raramente se deixam apanhar vivos e estes, para variar, escolheram resistir.
Os objetivos da operação no Jacarezinho poderiam ser alcançados com muito menos perigo em outro dia ou local; em Minas Gerais, era efetivar a prisão em uma estreita janela de oportunidade ou perdê-la para sempre. Os policiais cariocas foram expostos a riscos físicos e jurídicos injustificáveis; os mineiros, apenas na medida indispensável.
Claro que a apuração da Justiça pode concluir que todas as vítimas no Rio foram realmente mortas em legítima defesa e o contrário no caso de Minas. A questão é que os comandos da PMMG e da PRF mostraram muito mais cuidado com os seus subordinados, com a população e até com os suspeitos.
Não, não há como colocar os dois casos no mesmo saco quando se fala em respeito à vida e muito menos das decisões de comando e do apoio de inteligência. Havendo vítimas, sempre é preciso apurar responsabilidades, mas a estridência de manifestações politiqueiras obviamente infundadas só faz desprestigiar a defesa dos direitos humanos perante a opinião pública. Como surgiu outra notícia semelhante vinda do Paraná, vamos ter que voltar ao assunto na semana que vem.