Não há como negar que a
Medida Provisória 984/2020, assinada pelo presidente
Jair Bolsonaro (sem partido) no dia 18 de junho, representa uma ruptura significativa no modelo ao qual estamos acostumados a acompanhar as transmissões ao vivo dos jogos de
futebol no
Brasil.
Um dos principais interessados nessa nova iniciativa de negócio, o Flamengo provou na última quarta-feira (1º), que é possível alcançar bons resultados. Já fazendo valer a MP, que permite ao clube mandante distribuir os direitos de transmissão de sua partida da forma que quiser, o Rubro-Negro transmitiu o confronto com o Boavista na FlaTV, canal oficial do clube, que disponibilizou o jogo no YouTube, Twitter e Facebook.
A transmissão chegou a um pico simultâneo de 2,2 milhões de pessoas acompanhando a partida nas três plataformas, e se tornou a maior transmissão esportiva do YouTube no
mundo. Além da audiência, o Flamengo conseguiu arrecadar com “ingressos virtuais”, modalidade em que o torcedor faz doações, inserções de patrocinadores ao longo da transmissão e cota das redes sociais onde o jogo foi transmitido.
O clube carioca também conseguiu levar a transmissão das partidas para outros países. Pela plataforma Mycujoo, o torcedor pagava o valor de 8 dólares para conseguir acompanhar o jogo. De acordo com o portal UOL, somando todos os rendimentos, o
Rubro-Negro faturou cerca de R$ 900 mil na transmissão.
Não há dúvidas que a iniciativa do Flamengo foi um sucesso e que, com mais tempo de planejamento para os próximos jogos e campeonatos, o clube terá um potencial de arrecadação ainda maior. Mas há de se ponderar que um alcance de 2,2 milhões de pessoas, apesar de significativo, é pequeno quando relacionado a difusão da TV aberta. Algo que faz a diferença para o clube que possui aproximadamente
40 milhões de torcedores. É um fator que deve ser pesado na balança.
Entretanto, as transmissões exclusivas em canais próprios não é um caminho perfeito para todos. O Flamengo é dono da maior torcida do Brasil. Isso faz a diferença em qualquer negociação. Clubes com potencial nacional, além do Rubro-Negro, como Corinthians, Palmeiras, Vasco e São Paulo, se trabalharem bem poderão surfar nessa onda e conseguir ótimos resultados.
Outros gigantes como Internacional, Grêmio, Cruzeiro, Atlético-MG, Athletico-PR, Bahia, Fortaleza também podem conquistar boas receitas, principalmente a nível regional. Evidentemente, as grandes empresas não vão patrocinar todos os jogos e campeonatos. Vão investir nos grandes eventos e nos clubes que oferecem retorno significativo. E obviamente não são todos os clubes brasileiros que possuem esse potencial.
Nos principais campeonatos da Europa, os direitos de transmissão são administrados pela liga responsável pelo futebol no país e são vendidos em conjunto, não individualmente como ficou estabelecido pela MP 984/2020 no Brasil. Inglaterra, Espanha e outros países entenderam que para um torneio menos desequilibrado é preciso minimizar a diferença nos ganhos com TV. É claro que existem critérios que priorizam financeiramente os clubes de maior apelo e com melhor desempenho nas competições, mas as negociações são realizadas para que a diferença de renda com transmissões não seja absurda
Com esse novo modelo adotado pelo futebol brasileiro, a tendência é que os times grandes, com mais recursos e torcida, consigam arrecadar muito mais que os pequenos. A tendência é que o abismo entre grandes e pequenos cresça consideravelmente. Nem todos são Flamengo. E isso deve ser lembrado pela diretoria dos clubes. A ruptura com a TV aberta pode ser um caminho a ser explorado, mas certamente não é a melhor alternativa para todos.