No último dia 23 de julho ocorreu a abertura do maior evento esportivo do mundo. As Olimpíadas de Tóquio, marcadas originariamente para o ano de 2020, tiveram início na semana passada. Foi a quarta vez em toda a história das Olimpíadas que o evento não ocorre na data prevista. Nas três primeiras vezes, as Olímpiadas (que tiveram seu início no ano de 1896) foram canceladas em razão das duas grandes guerras mundiais. Desta vez, a pandemia fez com que o Comitê Olímpico Internacional e o governo do Japão decidissem pelo adiamento.
Logo na primeira semana de competições tivemos duas boas surpresas. A primeira, partiu da mais jovem atleta brasileira a participar de uma Olimpíada. Rayssa Leal, também conhecida como Fadinha, ganhou a medalha de prata no skate, categoria street. A atleta, de apenas 13 anos, começou seus treinos aos 6 anos de idade, após ganhar um skate de presente do pai.
A segunda boa surpresa foi o primeiro ouro brasileiro. O surfista Ítalo Ferreira, de 27 anos, foi o primeiro surfista do mundo a ganhar o ouro em Olimpíadas. Nascido no Rio Grande do Norte, Ítalo começou a surfar usando uma tampa de caixa de isopor onde seu pai, que era pescador, guardava os peixes pescados.
As trajetórias de Fadinha e Ítalo coincidem com a maior parte da história dos medalhistas olímpicos brasileiros. O Brasil é um país repleto de talentos individuais que, com muita superação e com o apoio da família ou de amigos, acabam se destacando mundialmente, nos mais variados tipos de esportes. Para ilustrar e fundamentar essa afirmação, vale uma breve olhada no quadro de medalhas de ouro ao longo da história dos jogos olímpicos.
Em 1920, o Brasil ganhou sua primeira medalha de ouro no tiro, com o atleta Guilherme Paraense. Trinta e dois anos depois, o Brasil ganhou um ouro no salto triplo, com o atleta Adhemar Ferreira da Silva (que repetiu o feito em 1956). Em 1980, uma dupla brasileira ganhou o ouro na disputa de vela (classe tornado). Em 1984, Joaquim Cruz faturou os 800m rasos. Em 1988, Aurélio Miguel ganhou o ouro no judô. Em 1992, o Brasil inteiro vibrou com o ouro no vôlei masculino. No mesmo ano, Rogério Sampaio levou o ouro no judô até 65kg.
Em 1996, ganhamos dois ouros na vela e um no vôlei de praia feminino. Em 2004, foram mais dois ouros na vela, um no hipismo, um no vôlei masculino e um no vôlei de praia masculino. Em 2008, ganhamos o ouro no salto em distância feminino, na natação (com Cesar Cielo) e novamente no vôlei masculino. Em 2012, faturamos um ouro no judô, um nas argolas e, novamente, um no vôlei feminino. Em 2016, nas Olimpíadas do Rio, tivemos nossa melhor participação na história, faturando 7 medalhas de ouro.
Fica fácil perceber que, com exceção dos esportes coletivos e de alguns destaques individuais (como ocorre no caso da vela), não há qualquer consistência no desempenho brasileiro. Pagamos o preço da falta de investimentos (públicos e privados) estruturados, que viabilizem o treinamento e a identificação de talentos desde a infância de nossos atletas. O investimento no esporte, aliás, além de incrementar nosso quadro de medalhas, contribuiria em muito para a melhoria de nossa segurança pública. Tratar o esporte como política social (obviamente, aliado à educação de qualidade) afasta os jovens das drogas e da criminalidade, contribuindo para a formação de cidadãos íntegros e produtivos.
Enquanto não alcançamos esse patamar, nos resta continuar torcendo para nossos grandes talentos individuais. Que heróis como a Fadinha brasileira e Ítalo, o primeiro surfista a abocanhar o ouro numa Olímpiada, continuem brilhando e inspirando outros jovens a seguirem seus exemplos. Um dia, quem sabe, o Brasil consiga encontrar o caminho para produzir campeões de forma consistente e estruturada. Nesse dia, certamente estaremos vivendo num país mais igualitário e seguro.
*Agradeço a todos os leitores que me acompanham aqui em A Gazeta, semanalmente. Como sabem, a partir de agora assumo um novo desafio que me exigirá dedicação integral, à frente da Polícia Federal no Espírito Santo. Assim, para manter a qualidade dos artigos que escrevo, precisarei diminuir a frequência de publicações. A partir de agora, nos “veremos” uma vez por mês. Um abraço a todos e muito obrigado pela compreensão!