É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Vírus Nipah: o que precisamos saber

O vírus Nipah é mais um exemplo dos desafios impostos pela crescente interação entre seres humanos, animais silvestres e ambientes naturais, um fenômeno intensificado pelo desmatamento, pela urbanização acelerada e pelas mudanças climáticas

Publicado em 05/02/2026 às 04h05

vírus Nipah voltou ao centro das atenções das autoridades de saúde após novos registros de casos na Ásia, reacendendo o debate sobre os riscos das doenças zoonóticas com elevado potencial de letalidade. Zoonoses são infecções transmitidas naturalmente entre animais vertebrados e seres humanos, causadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas.

Estima-se que sejam responsáveis por cerca de 60% das doenças infecciosas humanas e por aproximadamente 75% das doenças emergentes, incluindo raiva, leptospirose, leishmaniose, toxoplasmose, febre maculosa e a Covid-19.

A transmissão das doenças zoonóticas pode ocorrer por contato direto com animais infectados, por meio de vetores como mosquitos e carrapatos ou pelo consumo de alimentos contaminados. A prevenção envolve medidas conhecidas e eficazes, como higiene adequada, vacinação de animais, controle ambiental e vigilância sanitária.

O vírus Nipah é uma dessas doenças zoonóticas. Foi identificado pela primeira vez em 1998, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia, e desde então é considerado um dos patógenos mais perigosos monitorados pela comunidade científica internacional. Ele é o agente causador da chamada doença pelo vírus Nipah.

Transmitido principalmente por morcegos frugívoros, o vírus pode infectar seres humanos de forma direta, por contato com secreções dos animais ou pelo consumo de alimentos contaminados, ou de forma indireta, por meio da transmissão entre pessoas. Embora os surtos sejam relativamente raros, a taxa de letalidade é elevada, variando entre 40% e 75%, a depender das condições do sistema de saúde e da rapidez na identificação e no manejo dos casos.

Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos e muito semelhantes aos de outras viroses, como febre, dor de cabeça, dores musculares e vômitos, o que dificulta o diagnóstico precoce. Em casos mais graves, a infecção pode evoluir rapidamente para encefalite aguda, com alterações neurológicas, convulsões e, frequentemente, coma.

Até o momento, não há tratamento antiviral específico nem vacina aprovada para uso humano, o que reforça a centralidade da prevenção, da vigilância e do controle epidemiológico.

Nos países onde foram identificados casos da doença, os episódios têm sido enfrentados com medidas como isolamento rigoroso dos pacientes, rastreamento de contatos e campanhas de conscientização para reduzir o contato da população com possíveis fontes de contaminação, como frutas parcialmente consumidas por morcegos e produtos derivados de seiva de palmeira crua. É sempre importante destacar que a vigilância ativa e a transparência na divulgação de informações são fundamentais para conter a disseminação do vírus.

Historicamente, os países afetados têm adotado estratégias semelhantes. A Malásia foi o local do primeiro surto, em 1998–1999, envolvendo criadores de porcos. Singapura registrou casos em 1999, associados à importação de animais doentes da Malásia. Bangladesh apresenta surtos quase anuais desde 2001, frequentemente relacionados ao consumo de seiva de tamareira crua contaminada por morcegos. A Índia também registra surtos recorrentes desde 2001 e, no episódio notificado em janeiro de 2026, em Bengala Ocidental, houve registro de transmissão entre profissionais de saúde.

A principal diferença observada no surto de 2026 foi a confirmação de casos entre médicos e enfermeiros, levando à quarentena de mais de 100 pessoas. Esse cenário motivou países vizinhos a adotarem medidas preventivas em aeroportos, semelhantes às utilizadas durante a pandemia de Covid-19, e levou o Brasil a emitir um alerta oficial, informando que, até o momento, o vírus Nipah não representa ameaça ao país. 

Os morcegos são transmissores do vírus da raiva e podem atacar animais domésticos
Transmitido principalmente por morcegos frugívoros, o vírus pode infectar seres humanos de forma direta, por contato com secreções dos animais ou pelo consumo de alimentos contaminados. Crédito: Divulgação

Tanto o Ministério da Saúde quanto a Organização Mundial da Saúde classificam o Nipah como um vírus de baixo risco de transmissão sustentada, embora com potencial pandêmico.

Enquanto avançam as pesquisas para o desenvolvimento de vacinas e terapias experimentais, é fundamental reforçar que o risco de disseminação global permanece baixo, desde que as medidas de vigilância e contenção sejam mantidas.

O vírus Nipah é mais um exemplo dos desafios impostos pela crescente interação entre seres humanos, animais silvestres e ambientes naturais, um fenômeno intensificado pelo desmatamento, pela urbanização acelerada e pelas mudanças climáticas.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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