É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Gripe K: o que essa variante significa para a saúde pública?

É fundamental esclarecer o que essa identificação NÃO representa: não se trata de uma nova gripe, nem de um vírus completamente diferente, tampouco indica, automaticamente, maior gravidade ou perigo para a população

Publicado em 22/01/2026 às 04h00

A identificação recente do vírus Influenza A (H3N2), clado K, pelo sistema de vigilância laboratorial brasileiro, é antes de tudo uma boa notícia: mostra que a vigilância em saúde está atenta, funcionando e cumprindo seu papel de proteger a população. Conhecer os vírus que circulam é essencial para orientar decisões, avaliar riscos e, sobretudo, fortalecer as estratégias de prevenção, entre elas a vacinação.

Mas, afinal, o que esse achado significa para a vida das pessoas?

O clado K é uma variação do Influenza A H3N2, um vírus já conhecido, monitorado e incluído nas estratégias de imunização. O vírus da gripe muda com frequência, é da sua natureza biológica, e a cada transmissão entre pessoas pequenas alterações genéticas podem surgir.

Quando um grupo de vírus apresenta pequenas diferenças, mas ainda é semelhante entre si, recebe um nome específico para facilitar o acompanhamento. Dentro do H3N2, há diferentes “famílias” ou “ramificações” do vírus, chamadas de clados. Esses clados funcionam como marcadores para entender a circulação viral no tempo e no território.

O vírus Influenza A H3N2 tem maior impacto sobre pessoas idosas, gestantes, crianças pequenas, imunossuprimidos e indivíduos com doenças crônicas. Nesses grupos, a gripe não é banal: pode evoluir para quadros graves, internações prolongadas e óbitos, quando comparados com outros tipos de gripe.

O quanto o clado K é preocupante depende de fatores como: se se espalha facilmente entre as pessoas, se as vacinas continuam a funcionar bem contra ele, como se comporta em relação a outros vírus e se está ligado a casos mais graves de doença.

Do ponto de vista científico, os especialistas analisam o material genético do clado K para descobrir se houve mudanças importantes nas partes do vírus que o nosso sistema imunitário reconhece, especialmente numa proteína chamada hemaglutinina.

Se houver alterações grandes, pode ser que as vacinas atuais percam parte do seu efeito. No entanto, estudos mostram que, mesmo com pequenas diferenças entre o vírus utilizado para a fabricação da vacina e o vírus que está circulando, quem é vacinado continua protegido principalmente contra casos graves e mortes provocadas pela gripe.

Importante lembrar que, no caso da vacina, o vírus utilizado na fabricação não é o vírus vivo, mas sim uma versão inativada (morta) ou fragmentada do vírus Influenza, que não tem capacidade de causar a doença, apenas de ensinar seu sistema imunológico a criar defesas (anticorpos) para quando encontrar o vírus real, proteger você de uma infecção grave.

No Brasil, o nosso SUS oferta a vacina adquirida do Instituto Butantan. Ela é trivalente (protege contra três cepas), composta por vírus influenza fragmentados e inativados (mortos), com as Cepas de vírus A (H1N1 e H3N2) e B recomendadas pela OMS. A cada ano, dependendo das cepas que circularam no ano anterior, a vacina tem também modificações para nos proteger melhor.

No caso do clado K, em termos práticos, trata-se do mesmo tipo de gripe H3N2, mas com pequenas divergências genéticas que estão sendo monitoradas para entender melhor seu comportamento e garantir que as vacinas continuem eficazes.

É fundamental esclarecer o que essa identificação NÃO representa: não se trata de uma nova gripe, nem de um vírus completamente diferente, tampouco indica, automaticamente, maior gravidade ou perigo para a população.

Para quem contrai a gripe, os sintomas permanecem os mesmos: febre, tosse, dores pelo corpo e cansaço. As formas de prevenção também continuam válidas e indispensáveis: vacinação, higiene adequada das mãos e evitar contato com outras pessoas durante o período de doença para não disseminar o vírus.

Vacina de gripe
Vacina de gripe. Crédito: Shutterstock/ Ground Picture

A vigilância genetica do vírus, integrada à vigilancia epidemiológica, é fundamental para detectar precocemente mudanças no padrão de circulação viral. A associação entre dados laboratoriais, taxas de positividade, internações, ocupação de leitos e óbitos permite identificar se o clado K está associado a aumento de gravidade clínica ou pressão adicional sobre o sistema de saúde. Até o momento, a presença desse novo clado, isoladamente, não configura motivo suficiente para alteração do risco epidemiológico.

No contexto da saúde pública, a circulação do Influenza A H3N2 clado K reforça a necessidade de manter altas coberturas vacinais, principalmente entre os grupos prioritários, além de garantir o funcionamento das redes de diagnóstico e o início precoce do tratamento antiviral, quando indicado. A atenção primária tem papel estratégico na identificação de casos, manejo clínico adequado e na orientação de medidas não farmacológicas para conter a transmissão.

Num contexto em que vários vírus respiratórios circulam ao mesmo tempo, a vacinação se torna ainda mais estratégica. Vacinar é um gesto individual que produz um efeito coletivo. É um pacto silencioso entre pessoas que talvez nunca se encontrem, mas que compartilham o mesmo espaço, o mesmo ar, o mesmo tempo.

No fim das contas, a vigilância identifica os vírus, os laboratórios produzem evidências, o SUS organiza respostas, mas é a vacina que chega ao braço e muda o desfecho da história. Entre o vírus que circula e a doença que se instala, existe uma escolha possível, concreta e disponível. E ela se chama vacinação.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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