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Eleições 2020

Vale a pena sair de casa para comparecer às urnas? A resposta é: sim!

O inaceitável desrespeito à vida precisa ser manifestado nas urnas. Para aqueles líderes que consideram válidas disputas políticas que colocam em risco a vida das pessoas é imperativo aprender também essa lição

Publicado em 12 de Novembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

12 nov 2020 às 05:00
Ethel Maciel

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Ethel Maciel

Eleição em Castelo
Eleição em Castelo: neste domingo (15) brasileiros voltam às urnas Crédito: Mônica Camolesi
No próximo dia 15 de novembro, viveremos um momento histórico no Brasil: a primeira eleição em meio à pandemia da Covid-19. Para além de todas as dificuldades vividas em nove meses de uma onda sem fim da doença, de disputas políticas pequenas, de narrativas mentirosas que desinformam a sociedade, vivemos em nove meses o que parecem ser muitos anos. Estamos exaustos!
Em momentos de fadiga longa e intensa é possível que dúvidas nos assolem e que nos perguntemos: vale a pena sair de casa para comparecer às urnas? A resposta é: SIM!
O caminho da democracia é pavimentado de lutas. A alternância de poder e a vontade soberana do povo, exercida através do voto, revelam nossa jovem democracia aqui nos trópicos. É preciso relembrar que, antes do nosso 15 de novembro e mesmo depois, demoraram séculos para que uma mulher chegasse ao cargo mais alto do país, mesmo com as mulheres sendo maioria na sociedade. Os negros nunca chegaram tão perto, mesmo sendo também maioria no Brasil. Esses fatos falam muito sobre nossa sociedade.
Em nossa última eleição, ascendeu um grupo de políticos ideologicamente ultraconservadores, que se esquecendo dos princípios de um Estado laico utilizam-se do poder para confrontar os direitos sociais e proclamam por discursos baseados na pós-verdade uma nova era “sem corrupção”. E o que se seguiu foi um ataque aos direitos de mulheres, indígenas, pessoas com deficiência e comunidade LGBTQ+, além da falta de proteção ao Meio Ambiente.
Escândalos de corrupção e aparelhamento de instituições do Estado brasileiro geraram saída de ministros e denúncias que culminaram em processos em investigação no Supremo Tribunal Federal, envolvendo membros da família do presidente ou de pessoas próximas. Apesar dos mais de 50 pedidos de impeachment, o status quo segue mantido.
No entanto, 2020 chegou e com ele a maior pandemia dos últimos 100 anos. A crise sanitária está sendo um divisor de águas na história da democracia mundial. Líderes que combateram a doença guiados pela ciência estão sendo recompensados e reconhecidos pelas urnas. Outros, que mostraram fraco desempenho na proteção de vidas, estão perdendo na votação para recondução a seus cargos.
Um exemplo dessa lição foi a reeleição da primeira-ministra da Nova Zelândia, que foi uma liderança exemplar no combate a pandemia. Outro foi a eleição nos Estados Unidos, onde o comparecimento histórico às urnas em meio à grave pandemia revelou a necessidade de mudança para derrotar o negacionismo científico, o discurso e as práticas violentas.
O inaceitável desrespeito à vida precisa ser manifestado nas urnas. Para aqueles líderes que consideram válidas disputas políticas que colocam em risco a vida das pessoas, como é o caso da disputa das vacinas, é imperativo aprender também essa lição. A construção do descrédito de uma vacina, apenas pela sua nacionalidade, coloca em risco todo o esforço científico e a credibilidade para todas as outras vacinas. E isso é inaceitável.
Por tudo isso, nosso dever cívico em defesa da democracia deve ser comparecer às urnas, com todos os cuidados possíveis, fazendo valer a nossa vontade. Independentemente do resultado, estaremos lá para registrar para a História como pensamos, acreditamos e lutamos por um país melhor.
No meu voto, eu depositarei na urna: o apoio à ciência, aos direitos humanos e a liberdade de existir.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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