Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Cigarro: como combater um dos maiores vetores de adoecimento e morte evitáveis?

O tabagismo precisa ser tratado como ele é: uma doença neurocomportamental causada pela dependência à nicotina e classificada como uma doença crônica. Nada mais, nada menos

Publicado em 12/06/2025 às 04h30

O Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, é mais que uma data de conscientização. É um alerta de saúde pública global, um marco que nos convoca a enfrentar, com base na ciência, um dos maiores vetores evitáveis de adoecimento e morte: o tabagismo.

Anualmente, mais de 8 milhões de pessoas morrem em decorrência do uso do tabaco, das quais 1,2 milhão são vítimas indiretas, expostas involuntariamente ao fumo passivo. No Brasil, embora os avanços na redução de fumantes sejam significativos — caímos de 34,8% em 1989 para cerca de 9,1% em 2023 —, ainda convivemos com desigualdades, principalmente no acesso a tratamentos para a cessação do hábito de fumar.

A nicotina, uma substância psicoativa presente no tabaco, possui um potencial de indução de dependência superior ao de drogas como heroína e cocaína, conforme estudos do NIDA (National Institute on Drug Abuse). A nicotina atua diretamente no sistema dopaminérgico mesolímbico, o sistema de recompensa do cérebro, promovendo reforço positivo e rápido condicionamento. Essa dependência, associada à presença de mais de 7 mil compostos químicos no cigarro — dos quais aproximadamente 70 são reconhecidos como carcinogênicos —, torna o hábito de fumar um fator de risco sistêmico.

O tabagismo é responsável por aproximadamente 90% dos casos de câncer de pulmão, além de estar fortemente associado a doenças cardiovasculares, DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), Acidente Vascular Cerebral (AVC), câncer de bexiga, pâncreas e cavidade oral. Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) o classifica como epidemia. Como bem relatado por pacientes em cessação, a nicotina cria um estado de abstinência que ultrapassa o desconforto físico, atingindo aspectos cognitivos e emocionais, o que exige abordagem terapêutica complexa.

O impacto do tabagismo vai muito além da esfera individual. Os custos sociais, ambientais e econômicos são alarmantes. A OMS estima que o tabaco impõe um custo global anual de mais de US$ 1,4 trilhão, somando gastos com tratamento de doenças tabaco-relacionadas e perdas de produtividade. No Brasil, 477 pessoas morrem a cada dia por causa do tabagismo. R$ 153,5 bilhões são os custos dos danos produzidos pelo cigarro no sistema de saúde e na economia, e 145.077 mortes anuais poderiam ser evitadas, segundo estudo do Instituto Nacional de Câncer.

Além disso, o cultivo do tabaco — que ocupa cerca de 4 milhões de hectares no mundo — contribui diretamente para o desmatamento e a degradação ambiental, especialmente em países em desenvolvimento. Estima-se que 200 mil hectares de florestas são desmatados por ano apenas para a secagem do tabaco. A utilização de agrotóxicos no plantio afeta gravemente a saúde de agricultores, frequentemente expostos sem proteção adequada, e compromete a segurança alimentar local ao substituir cultivos de alimentos para subsistência.

pacote MPOWER, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde, é uma das estratégias de saúde pública mais eficazes no enfrentamento do tabagismo. Países que adotaram integralmente as medidas — como Austrália, Reino Unido, Uruguai e Brasil — observaram quedas expressivas no número de fumantes e nos custos com saúde.

O Brasil foi pioneiro em diversas frentes: a proibição da propaganda de cigarro, a adoção de advertências com imagens nas embalagens, a restrição ao fumo em ambientes fechados e o aumento progressivo da tributação sobre os produtos de tabaco. Segundo dados da OMS, a cada aumento de 10% no preço do cigarro, o consumo tende a cair em até 4% em países de média renda — um efeito ainda mais acentuado entre jovens e populações de baixa renda.

A edição de 2025 do Dia Mundial sem Tabaco — com o tema “Desmascarando a indústria do tabaco: expondo as táticas das empresas para deixar os produtos de tabaco e nicotina mais atrativos” — reforça a necessidade urgente de conscientização sobre os mecanismos de manipulação empregados pela indústria. Essa campanha visa informar e empoderar a sociedade para reconhecer e resistir às estratégias de marketing disfarçadas em designs modernos, influenciadores digitais e associações enganosas com liberdade e sofisticação.

Combater o tabagismo não é tarefa exclusiva dos governos. Requer a ação coordenada de todos os setores sociais. É preciso desnaturalizar a presença do cigarro em filmes, séries e redes sociais, onde ainda aparece associado à liberdade ou sofisticação — um recurso narrativo que, sabemos, influencia comportamentos juvenis. Cerca de 80% dos fumantes começam antes dos 20 anos, muitos ainda na adolescência.

Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, estimou-se que 2,38% das pessoas entre 15 e 24 anos usavam dispositivos eletrônicos, o que representa cerca de 44 mil jovens no Espírito Santo. Embora ainda não conheçamos todos os efeitos a longo prazo, esses números são preocupantes com base nos impactos conhecidos do tabaco.

Mulher quebra cigarro
Mulher quebra cigarro. Crédito: Freepik

A escola tem papel fundamental ao incluir a prevenção ao tabagismo no currículo de educação em saúde. A família precisa estar atenta às armadilhas da indústria, desmistificando as mensagens enganadoras que perpetuam sua aceitação. E os profissionais de saúde devem abordar o tabagismo como o que ele é: uma doença crônica com recaídas esperadas, e não uma falha moral.

A luta contra o tabaco é, antes de tudo, uma defesa da vida e da autonomia. Políticas públicas baseadas em evidências, somadas ao engajamento da sociedade civil, têm o poder de transformar o curso dessa epidemia. É preciso empoderar a população para reconhecer e resistir às manipulações da indústria, que incluem a normalização do cigarro em mídias populares e a promoção de cigarros eletrônicos como alternativas “menos nocivas”.

O Brasil, com sua tradição de políticas de controle do tabagismo, pode e deve liderar a conscientização sobre os danos causados por essas práticas industriais. O tabagismo precisa ser tratado como ele é: uma doença neurocomportamental causada pela dependência à nicotina e classificada como uma doença crônica. Nada mais, nada menos.

Enfrentar o tabagismo é mais do que uma questão de saúde pública; é um compromisso com o futuro, protegendo a vida das pessoas e garantindo um legado de bem-estar para as gerações que virão.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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