Com coautoria de Raíssa Lima e Salvador
Na semana passada, nos despedimos da Rainha do Rock, a cantora Tina Turner, aos 83 anos de idade. Sua história foi cunhada tanto pelo seu sucesso musical e indiscutível talento, quanto também por uma jornada de muita superação e de resistência como mulher preta.
O legado e o brilho musical de Tina Turner quando estava no palco, inesquecível em todos os sentidos, ocultam os bastidores penosos que marcaram um casamento abusivo, no qual, por anos, sofreu violências diversas, como agressões físicas, patrimoniais e psicológicas.
Tina Turner, uma sobrevivente da violência doméstica, desempenhou, sobretudo, um papel de inspiração e de esperança às mulheres vítimas de relacionamentos forjados por abuso e por assédios, representando um ícone musical, um ícone feminista e, também, um ícone para as mulheres negras, duplamente vitimadas, ora pela sociedade patriarcal, ora pela sociedade racista.
De acordo com os dados obtidos pelo novo Relatório da Anistia Internacional, movimento global que realiza campanhas pelo reconhecimento dos direitos humanos, desde 2019 o aumento do número de feminicídios no Brasil tem se comportado em uma tendência exponencial, na qual mulheres negras compõem o percentual espantoso de 62% das vítimas.
Dados tão estarrecedores são prova da forma repugnante com que a violência racial e de gênero ainda são conduzidas na atualidade brasileira, iniciando-se em microagressões verbais ou não verbais sutis que levam, finalmente, ao extermínio da vida humana.
No entanto, a constatação por dados e por pesquisas, ainda que de grande valor científico, tão somente atesta e confirma uma realidade que, infelizmente, nos deparamos todos os dias, em todos os âmbitos possíveis, sob o formato de um racismo estrutural que vulnera e que viola diariamente pessoas negras e pardas no Brasil.
Seja dentro de casa, seja nas ruas, seja nas escolas, seja nos hospitais, seja nas prisões brasileiras. Nas mídias sociais, nos filmes e na televisão, nos relacionamentos, nas relações familiares, nas relações de trabalho. Seja no futebol, seja na música. Seja na vida de todos, tanto negros, tanto pardos, tanto indígenas.
Inclusive, pelo lamentável caso envolvendo o jogador Vini Jr. essa semana, que inquietou os corações e as mentes de todos os brasileiros, conduzindo-nos à indignação e à mais sincera repulsa, suscitando-se um debate sobre as formas perversas com que o racismo se comporta na atualidade, partindo de tanto ódio contra a cor, bem como de atos completamente irrestritos à honra e à dignidade, tão somente no intuito de lesar, violar, constranger e matar o outro.
A indignação que sentimos pelo jogador, principalmente quando nos deparamos com atos inescrupulosos de ódio à raça, como quando pelo caso do boneco pendurado, deve ser transferida para nossas rotinas, para nossas demandas pessoais e para nossas tentativas de transformação social, quando nos colocamos em sociedade e nos posicionamos substancialmente como antirracistas.
Dessa forma, quando se fala na proteção aos direitos humanos e à igualdade racial e de gênero, devemos assumir uma postura social e política diante de medidas que aumentam o preconceito ou que perdoam atos discriminatórios, como é o caso da PEC 9/2023, que anistia os partidos que descumpriram com a obrigatoriedade das cotas raciais e de gênero nas eleições de 2022, bem como celebrar ações e legislações que promovem a igualdade, tal qual a equiparação, neste ano, do crime de injúria racial ao de racismo.
Assim, em uma semana marcada por tantos atos de racismo e de preconceito, o falecimento de Tina Turner surge como uma forma de lembrar não apenas do carisma e do talento musical da cantora, mas também como um convite à reflexão sobre os crimes de ódio e seus atrozes prejuízos, que vulneram minorias sociais e fazem perpetuar uma condição discriminatória que em nada se relaciona aos princípios da nossa Constituição Cidadã, em um Estado democrático de Direito.
Que a vida de Tina Turner seja memorada pela importância da igualdade racial e de gênero, da dignidade da pessoa humana, da liberdade e da justiça para mulheres vítimas de violência doméstica. E que o caso de Vini Jr. evoque uma indignação capaz de mudar cada vez mais a realidade brasileira, promovendo o anseio por mais políticas públicas inclusivas, bem como por uma legislação que viabilize, efetivamente, e de forma igualitária, a participação do negro na sociedade.