Um conflito entre indígenas e agentes de segurança foi registrado durante a passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por Aracruz, no Norte do Espírito Santo, na quinta-feira (21). Durante a confusão, um agente do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência foi atingido na cabeça e precisou levar pontos.
O conflito começou quando indígenas do território Tupinikim tentaram se aproximar da área reservada às autoridades que compunham a mesa de honra da 6ª Teia Nacional de Pontos de Cultura, realizada no Sesc de Aracruz. A intenção, segundo membros do grupo, era fazer uma apresentação cultural para saudar o presidente. A movimentação teria acionado o alerta da equipe de segurança presidencial, que bloqueou o avanço do grupo.
A sexta edição do maior encontro de pontos de cultura do Brasil foi realizada entre os dias 19 e 24 de maio em território indígena de Aracruz. Além de Lula e da primeira-dama, Janja, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, foi uma das autoridades presentes no evento.
Vídeos obtidos pela reportagem (veja acima) mostram o tumulto nas proximidades do palco. Nas imagens, um indígena ergue uma casaca – instrumento musical tradicional – e atinge um dos agentes que faziam a segurança da Presidência na cabeça.
A Polícia Federal (PF) foi procurada para mais detalhes sobre o caso e, por nota, informou que “todas as medidas de polícia judiciária vêm sendo adotadas para a adequada apuração do caso, identificação e responsabilização dos envolvidos”.
A reportagem de A Gazeta também tentou mais informações sobre o tumulto com a organização do evento e com a Presidência da República, mas não houve resposta. Não foi revelado, por exemplo, se o agente ferido precisou ser hospitalizado.
Indígenas criticam organização do evento
Em conversa com a reportagem, Jocelino Tupinikim, membro do Centro Cultural Tupinikim Ka'arondarapé, educador e liderança indígena, alegou truculência de parte da organização do evento, bem como negou que os indígenas foram ao local para protestar sobre pautas fora da agenda do evento.
"Não foi manifestação nem atentado à presidência. Houve apenas um impasse com a segurança. Não tinha relação com repactuação [do Novo Acordo de Mariana] e nunca houve intenção de atacar ninguém. Os jovens apenas queriam estar mais perto”, afirmou.
Em publicação nas redes sociais, representantes do povo Tupinikim criticaram o que chamaram de silenciamento do povo indígena de Aracruz. A estudante de Pedagogia Victoria Tupinikim relatou que, desde julho de 2025, os indígenas da Aldeia Caieiras Velha participaram das tratativas para a realização da Teia Nacional dos Pontos de Cultura no território Tupiniquim e Guarani. No entanto, segundo ela, "muitas promessas, acordos ou expectativas não foram cumpridas".
"Com a vinda do presidente da República, maior autoridade do nosso país, para nós era de grande importância recepcioná-lo. Sendo assim, entramos normalmente no autitório — e não invadimos. Todos estávamos credenciados, acompanhando o evento desde o primeiro dia", contou, em publicação no Instagram.
Indígenas apontam ainda que a reação dos agentes teria sido excessiva, provocando empurra-empurra e o início do tumulto. Eles também destacaram que a casaca exibida nas imagens é um instrumento tradicional utilizado em manifestações culturais e religiosas do Espírito Santo.
"Saímos da Teia com um sentimento profundo de indignação, repúdio e desrespeito. Fomos usados para divulgar o evento, para dar visibilidade, força e presença, mas quando chegou a hora da participação real, fomos colocados à margem", escreveram Samily Tupinikim e Nathalia Pego, em postagem conjunta no Instagram.
Veja a publicação abaixo:
Jocelino também destacou que o grupo indígena participou do evento a convite da organização e que o objetivo era apresentar manifestações culturais. “Ontem (quinta-feira) eu estava muito triste, porque nossos cantos sagrados não foram recebidos da forma que gostaríamos. Somos contra qualquer tipo de violência e acreditamos no poder da cultura e da espiritualidade.”
Os pontos de cultura são os grupos e entidades culturais que desenvolvem ações artísticas e comunitárias em seus territórios. Eles passaram a ser reconhecidos pelo Ministério da Cultura em 2004, com a criação do Programa Cultura Viva.