O tema era cultura, mas o discurso de quase uma hora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um evento cultural em Aracruz, no Norte do Espírito Santo, nesta quinta-feira (21), abrangeu temas que foram da educação ao feminicídio, do combate ao crime organizado às fake news geradas por inteligência artificial. Com uma fala mais afiada, o mandatário levou para o palco as atuais revelações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, e ainda teceu críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
As declarações ocorreram durante a cerimônia da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, no Sesc Praia Formosa, onde foram entregues equipamentos culturais e de saúde. Foi a 15ª vez que Lula visitou o Espírito Santo.
As falas do petista ganharam rápida repercussão nacional e dominaram os debates nas redes sociais após o evento — em especial, os comentários sobre a ligação entre o liquidado Banco Master e o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Veja a seguir os principais pontos trazidos pelo presidente:
Cultura e críticas ao governo Bolsonaro
Grande parte do discurso foi dedicada à valorização da cultura e à reconstrução do Ministério da Cultura, recriado no atual governo após ter sido extinto durante a gestão Bolsonaro. Lula criticou os ataques à Lei Rouanet e às políticas culturais.
“A cultura ilumina a escuridão, ajuda a atravessar os tempos mais sombrios. O governo anterior tentou destruí-la, desacreditou seus mecanismos de financiamento. Foram quatro anos de repetidos atentados contra a cultura. Artistas foram criminalizados. Leis de fomento foram atacadas. E ainda assim a cultura sobreviveu graças a cada uma e a cada um de vocês”, declarou.
O presidente também afirmou que o governo Bolsonaro promoveu um “desmonte” institucional.
Acabaram com o Ministério da Cultura, acabaram com o Ministério da Igualdade Racial, com o Ministério dos Direitos Humanos, com o Ministério das Mulheres. Eles foram acabando com tudo porque era preciso transferir as coisas, porque o presidente não sabia fazer outra coisa a não ser o gabinete do ódio fazendo mentiras todo santo dia
Luiz Inácio Lula da Silva Presidente da República
Lula ainda declarou que a cultura é responsável por transformar a sociedade. “A educação nos ensina, mas a cultura nos faz revolucionários. A cultura move milhões de neurônios na nossa cabeça. E é por isso que muita gente nunca gostou de cultura.”
Caso Vorcaro e ataques à oposição
Um dos trechos que chamou atenção ocorreu quando Lula citou o banqueiro Daniel Vorcaro e fez referência indireta à família Bolsonaro.
Sem citar detalhes da investigação, o presidente declarou: “Vocês sabem quantas ofensas artistas, mulheres e homens receberam porque iam buscar um dinheirinho na Lei Rouanet? Agora acontece que, como a verdade não falha, nós nunca fomos atrás da Lei Daniel Vorcaro para financiar nenhum artista brasileiro. E ainda vai aparecer muito mais coisa, porque nós estamos convencidos de que o período da mentira, o período das ofensas e o período da violência precisam acabar nesse país.”
Em outro momento, Lula atacou diretamente Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República nas eleições deste ano.
“Quem imaginava que aquele menino que parecia ser a pessoa mais santa da família Bolsonaro tivesse pegando 159 milhões de dólares para fazer um filme do pai? Ninguém imaginava. E isso é apenas o que a gente sabe agora”, disse o presidente, confundindo-se com a moeda. Na verdade, o Banco Master teria repassado 159 milhões de reais para o filme sobre Bolsonaro.
Violência contra a mulher e feminicídio
O combate à violência contra a mulher foi um dos assuntos centrais do discurso. Lula afirmou que o problema não será resolvido apenas com leis, mas principalmente por meio da educação.
“A gente não vai vencer a luta contra o feminicídio apenas fazendo lei. A gente vai vencer a luta contra o feminicídio educando melhor os homens desse país a partir do momento que ele vai para uma creche. É a educação que vai mostrar que nós somos iguais. É a educação que vai mostrar que destratar mulher ou menina é crime”, declarou.
O presidente também defendeu que o combate à violência feminina seja tratado como pauta permanente em escolas, igrejas e espaços públicos. “O bispo vai rezar a missa? Antes de falar um monte de coisa, fala: ‘não bata na mulher’. O pastor vai fazer o culto? Antes de falar um monte de coisa, fala: ‘não bata na mulher’. A gente vai conversar, dar aula na escola? Começa a aula dizendo isso, porque nós temos que criar uma consciência de que é anormal a violência contra a mulher”, afirmou.
Lula ainda destacou os 100 dias do Pacto Nacional contra o Feminicídio e afirmou que o governo federal já criou novas medidas preventivas e legais sobre o tema. “Em apenas 100 dias, nós já fizemos mais leis, mais decretos e mais medidas preventivas do que em toda a história desse país”, disse.
Educação como prioridade
Ao falar sobre educação, Lula afirmou que pretende apresentar um programa nacional para reduzir desigualdades educacionais ao longo da próxima década.
Este país precisa resolver o seu problema da educação. E eu pretendo apresentar um programa de educação para a gente resolver, em 10 anos, o atraso na educação deste país
Luiz Inácio Lula da Silva Presidente da República
O presidente também relacionou educação ao combate à violência e à construção de uma sociedade “mais civilizada, mais fraterna e mais solidária”.
Segurança pública e crime organizado
Outro eixo importante do discurso foi a segurança pública. Lula afirmou que o Brasil precisa reforçar o controle das fronteiras e ampliar o combate ao crime organizado.
“Não é possível um país com 16.800 quilômetros de fronteira seca, com 8 mil quilômetros de fronteira marítima, com a maior floresta tropical do mundo e com 12% da água doce do planeta ficar desguarnecido como está. Qualquer um que quiser invadir aqui invade, porque a gente nunca pensou nisso”, declarou.
O presidente também comentou sobre brasileiros investigados que vivem nos Estados Unidos. “Quer combater o crime organizado? Me entrega os brasileiros que estão roubando lá. Brasileiro que roubou aqui está morando em Miami”, disse.
Lula ainda citou o empresário Ricardo Magro e criticou o contrabando de combustíveis e armas. “A Polícia Federal brasileira apreende muitas armas. Sabe de onde vêm? Dos Estados Unidos”, afirmou.
Trump, Amazônia e soberania nacional
Ao comentar declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula defendeu a soberania brasileira e afirmou que o país precisa fortalecer sua estrutura de defesa. “Depois que o Trump disse que a Groenlândia é dele, depois que ele disse que o Canadá é dele, depois que ele disse que o Canal do Panamá é dele, quem é que garante que ele não vai dizer que a Amazônia é dele?”, questionou.
Ao comentar o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, Lula afirmou que preferiu não se precipitar nem ceder a pressões políticas diante das taxas de importação que chegaram a até 50% para alguns produtos brasileiros. A medida causou forte impacto econômico no país, tendo o Espírito Santo como um dos estados mais afetados.
“Resolvi dizer para o Trump: ‘Cara, eu não quero guerra com você. O que eu quero fazer com você é uma guerra de narrativa. Eu quero provar que você está errado e que o Brasil está certo. Eu quero provar com números’”, declarou.
“Quando ele disse que a balança comercial era deficitária com o Brasil, eu fui provar que, nos últimos 15 anos, eles tiveram superávit conosco de 415 bilhões de dólares. Nós é que deveríamos estar nervosos, não ele”, completou.
Criticou, ainda, durante outro momento, o estilo de gestão de Donald Trump. O presidente afirmou que Trump “acha que pode governar o mundo pelo Twitter”. O líder petista também acrescentou que o Brasil precisa defender sua soberania diante de disputas internacionais e da guerra de narrativas nas redes sociais.
Críticas às redes sociais e aos algoritmos
Lula também falou sobre o impacto da internet e da inteligência artificial na política.
Segundo ele, os algoritmos passaram a controlar o comportamento das pessoas. "O ser humano está perdendo o controle dos algoritmos e está virando algoritmo. Nós não estamos dominando os algoritmos. São eles que estão nos dominando", afirmou.
O presidente demonstrou preocupação com o uso da inteligência artificial durante as eleições. “A inteligência artificial é um bem muito grande para a humanidade na saúde, na educação e na engenharia. Mas ela não pode servir para a política, porque na política você não pode votar em mentira ou votar em coisa abstrata”, declarou.
Segundo ele, a população precisa aprender a diferenciar informações verdadeiras de conteúdos falsos. "É preciso ser mais seletivo e saber distinguir o que é verdade do que é mentira", disse.
“Tem gente que acha que sou contra a internet. Não sou bobo de ser contra a internet. A internet veio para revolucionar. O que sou contra é que o ser humano está perdendo o controle do algoritmo e está virando algoritmo”, disse.
Celulares roubados e 'drama' do governo
Em um dos momentos mais improvisados do discurso, Lula comentou a dificuldade do governo em combater o mercado de celulares roubados sem prejudicar consumidores que compraram aparelhos sem saber da origem ilegal.
“Eu só quero prejudicar quem roubou. Não quero prejudicar a pessoa que, na boa-fé, comprou. Porque muita gente comprou sem saber, achando que estava fazendo um bom negócio”, afirmou.
O presidente disse que o governo tenta encontrar uma solução para recuperar milhões de celulares cadastrados como roubados sem gerar prejuízo para consumidores inocentes. “Se for o ladrão, tem que ser preso. Mas, se não for o ladrão, se for alguém que comprou na boa-fé, eu também não quero prejudicar essa pessoa”, declarou.
O evento em Aracruz marcou mais uma agenda de Lula voltada à retomada de políticas culturais e ocorreu em meio ao aumento da tensão política nacional, diante da aproximação do período eleitoral de 2026. O discurso do presidente repercutiu amplamente nas redes sociais e na mídia nacional.
Veja imagens da visita de Lula a Aracruz